sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O Duplo Aspecto do Coração


O SENHOR E SEU ACÓLITO
Elisabeth Rochat de la Vallée

O Coração Soberano

“O Coração (xin) tem a responsabilidade do Senhor e do mestre (jun zhu); daí procede a resplandecência dos Espíritos (shen ming).” (Suwen 8)

A face dupla do Coração, como é a de todo soberano, é aqui apresentada:

- Ele é o senhor (jun), sobre o qual ninguém ousa levantar os olhos. Oculto no fundo de seu palácio, no centro do mundo, sua presença e sua autoridade se fazem apesar disto, sentir-se em todos os lugares, e determina profundamente a boa ou má fortuna de todo o país.
O mesmo caractere jun é utilizado na expressão que designa o Fogo imperador, ou Fogo senhor (jun huo).

- Ele é o mestre (zhu), capaz de fazer sentir o peso de sua presença e de sua autoridade através de algumas manifestações escolhidas. O fato de ele ser o soberano, oculto na invisível comunicação com o Céu e seus Espíritos, não o impede de exercer seu poder. Não há grande pontífice ao lado de um rei temporal; é o próprio indivíduo que assegura este cargo único; é o Imperador no Império centralizado e unificado; é o Coração em um organismo humano.
O mesmo caractere zhu é utilizado na expressão que designa o Coração-mestre (xin zhu). Esta expressão é a denominação habitual do meridiano Jueyin da mão[1]; é também o Coração agindo como um mestre, exercendo uma maestria particular, tal qual a de comandante do sangue (xin zhu xue), de comandar as circulações vitais (xin zhu mai), ou ainda de comandar a circulação regular do sangue (xin zhu xue mai), três variações da mesma função.

Os mai (ou mo) são as circulações vitais e os pulsos. É a pulsação; a força e a regularidade com as quais o Coração é capaz de pulsar o sangue em todo o corpo através de suas vias de circulações. Este ritmo vital[2] está presente em todos os lugares, até no mais fino dos capilares, que são também mai[3]Ele é percebido lá onde a quantidade de sangue é suficiente, sobre as artérias quando elas são suficientemente superficiais, e isto são os pulsos. Mas a vida não termina onde a visão alcança; quando já não se percebe a pulsação, ela permanece presente; quando já não se percebe o sangue, ele ainda circula.

O sangue não é apenas um líquido[4] que nutre e aquece; é também o vetor próprio dos espíritos, que tornam o indivíduo capaz de ter sensibilidade, percepção, conhecimento.

Outra maneira de falar da presença, em todos os lugares, da influência dos espíritos é falar da sua irradiação ou de sua luz.

Associa-se, então, os espíritos (shen) ao caractere ming, que significa luz e esplendor, inteligência e clarividência, fazer brilhar e aclarar, distinguir e compreender.

Ming, é o esplendor que resulta da atividade espiritual, ou seja, quando os espíritos dos Céu conduzem as atividades de acordo com a ordem natural. É a luz que se espalha em todos os lugares no corpo e no mental, que inunda as disposições interiores que me fazem agir e reagir, da mesma maneira que a influência de um bom soberano toca seus súditos no mais profundo, para além das leis justas ou da paz e da prosperidade mantidas. A iluminação é quando o Coração do homem está inteiramente aberto ao que lhe vem do Céu, do Natural.

A luz dos espíritos (shen ming) mostra como a operação sutil e secreta, que coloca em contato com os espíritos, é assumida por um mestre – que é o Coração no corpo e o soberano no império. Este contato ilumina a vida interior no invisível, e faz resplandecer soberbamente todos os aspectos visíveis desta vida: tez saudável e soberba (propiciada por uma circulação justa de um sangue de qualidade na face), olho vivo e claro (onde transparecem os Espíritos do Coração), beleza na aparência assim como acuidade na inteligência...

“Quando o mestre espalha sua luz (zhu ming), os inferiores ficam pacíficos. Tal manutenção da vida (yang sheng) propicia a longevidade, de geração a geração, e o Império sob o Céu resplandece em um grande esplendor.
Mas se o mestre não espalha sua luz, os Doze cargos estão em perigo; o que provoca fechamento e bloqueio das vias, a parada das comunicações; e o corpo é gravemente prejudicado. Tal maneira de manter a vida é catastrófica, e no Império sob o Céu as próprias linhagens ancestrais[5] estão em grande perigo. Tomem cuidado, tomem bastante cuidado! ”(Suwen 8)

Do Coração, primeiro nomeado na hierarquia dos Doze cargos, dependem, em último caso, a boa ou a má saúde, a longevidade ou a morte prematura. Da mesma maneira o soberano conduz seu reino à prosperidade ou à ruína. Se a resplandecência dos espíritos, que é luz da Virtude, é velada, nenhum funcionário tem coração no trabalho, sabe para onde vai, coopera com os outros. É a desorganização.

Os Agentes do Coração

“O Meio do Peito (dan zhong) é encarregado dos agentes no local e em missão (chen shi) ; daí procedem a alacridade e a alegria (xi le).“ (Suwen 8)[6]

Danzhong é o meio do peito, onde habitualmente se situa o mar dos sopros do peito. Este mar de sopros, lugar de acúmulo dos sopros ancestrais (zong qi), dirige os sopros de todo o corpo a partir das regiões altas do tronco, onde ocupa o trono o Coração junto com seu ministro do Estado, o Pulmão[7].

“Danzhong é o mar dos sopros (qi hai). ” (Lingshu 33)

O mar dos sopros é a união dos sopros que vêm diretamente do Céu através da respiração e daqueles que vêm da Terra através da transformação dos alimentos. Uma compenetração yin/yang é, portanto, constantemente realizada neste mar, que dá aos sopros suas qualidades e seus ritmos. A harmoniosa composição realizada no mar dos sopros representa o yin/yang à obra no corpo e o equilíbrio dos pares: sangue e sopros, nutrição e defesa...
O ritmo correto que emana deste lugar se percebe na regularidade da respiração do Pulmão e na dos batimentos do Coração. Há, portanto, um efeito local, no peito, sobre o Pulmão e o Coração, e um efeito à distância em todas as circulações, comandadas desde o peito e percorrendo o corpo. A harmonia da composição dos sopros, colocando a vida em seu ritmo natural, é também a melhor maneira de servir o Coração, de lhe permitir comandar a vida tal como ela deve se desenrolar e de protegê-lo de todo mal.

Não é fácil diferenciar a função do mar dos sopros e do Pulmão[8]; e, frequentemente, esta diferença não se impõe. Tanto Pulmão como Danzhong são assistentes, em posições altas, do Coração. Tanto um quanto o outro servem o Coração assegurando o equilíbrio yin/yang dos sopros que se acumulam no peito e regulando os movimentos que eles impulsionam à respiração, ao Coração e a todas as circulações. Os meridianos, que regulam os movimentos do sangue e sopros, começam com o meridiano do Pulmão e dependem do mar de sopros do peito; as pulsações que fazem circular sangue e sopros são regulados a cada aurora pelo Pulmão[9], mas são também a manifestação do bom (ou mal) funcionamento do mar dos sopros.

De qualquer maneira, sangue e sopros não são separáveis, seja o sangue dependente do Coração e os sopros do Pulmão, sejam sangue e sopros se encontrando juntos no peito sob a autoridade do Coração e de seu assistente. Pode-se apenas constatar que o Pulmão não intervém diretamente no sangue; ele age apenas sobre os sopros que o conduz. Em contrapartida as proteções e conexões do Coração (xinbaoluo, cf. mais à frente) são uma função que age diretamente sobre o sangue. Poder-se-ia dizer então, que Danzhong, mar dos sopros sobre o Renmai[10], representa a convergência do yin e do yang em movimento no corpo. Tanto isto é verdade que não há sopros ativos em um corpo sem substâncias que lhe permitam se ativar, e que estas mesmas substâncias já não são “incorporadas” e não mais estão presentes de maneira frutífera no organismo, se elas não se permitem serem compenetradas, animadas e transformadas sem cessa pelos sopros.

No Suwen 8, insiste-se sobretudo, para o Pulmão, no ritmo dos sopros, e dá-se a Danzhong o papel de propagar por todos os lugares a presença misteriosa e vivificante do Coração e de seus Espíritos, através de todas as circulações que se comandam ao Aquecedor superior: yin e yang, sangue e sopros, nutrição e defesa.

Agentes no local e em missão convêm, portanto, bastante bem ao duplo aspecto do papel de Danzhong:

- De um lado, seus sopros estão lá para ajudar o Coração a bater e a pulsar, para conduzir em direção a ele os sucos dos quais ele se nutre e pelos quais faz o sangue.

- De outro lado, seus sopros servem também a todas as circulações que investem o corpo e seus órgãos; eles insuflam e sustentam o movimento. Mas a relação deles com o Coração lhes permite igualmente inspirar uma orientação ou um sentimento de vida que toma nascimento no mais profundo do Coração, onde se mantém os Espíritos. O que sai do Coração não é apenas o sangue, é também a alacridade e a alegria, é também o que aclara a vida e permite à consciência funcionar.

Vê-se que as analogias com os invólucros protetores e conexões do Coração (xin bao luo) são fortes. Por vezes, Danzhong é até mesmo explicitamente dotado de um papel de proteção:

“Peito e ventre (xiong fu) são as muralhas dos zang e dos  fu. Danzhong é o palácio imperial (gong cheng)[11] do Coração-mestre (xin zhu).” (Lingshu 35)

A melhor defesa do Coração não é a de continuar a bater regularmente, pois todo o organismo coopera harmoniosamente à formação equilibrada dos sopros do peito. A irradiação do Coração, em retorno, fará com que cada órgão se comporte ainda melhor.

Danzhong e Xinbaoluo

Na expressão “invólucros protetores e conexões próprias ao coração” (xin bao luo), que tem habitualmente o lugar da décima segunda víscera, no lugar de Danzhong, encontra-se o mesmo aspecto duplo: os invólucros são para a proteção no local, e as conexões para a comunicação, a circulação, a propagação ao longe.

“No exterior do Coração há gorduras que envelopam (bao guo) o Coração; os nomeamos proteções do Coração (xin bao).” (Taisu)

“O Mestre-Coração (xin zhu) está em relação frente/verso (biao li) com o Triplo Aquecedor; eles têm um nome (Ming) mas não têm forma (wu xing).“ (Nanjing 25)

Forma (Taisu) ou não forma (Nanjing)? Ou falsa questão. Há a função, que é o movimento dos sopros que pulsam o sangue e que é essencial; mas há também manifestações sensíveis deste funcionamento como os vasos sanguíneos. Os vasos sanguíneos fazem parte da circulação do sangue e sopros, mas não se pode reduzir o sangue e sopros, nem os meridianos que os guiam, à estes vasos. Da mesma maneira, as gorduras que envelopam o Coração podem proteger o Coração anatômico.

Mas o que é realmente importante está na relação funcional do Coração-soberano, mestre da consciência e da vida, com seus meios de expressão.

Um soberano deve ser protegido de todo dano, mas deve ser também ligado ao que ele domina. Desenvolve-se em torno do Coração uma função de proteção e de colocar em relação: os invólucros protetores (bao) e as conexões (luo) próprias ao Coração (xin): Xinbaoluo. Não se trata aqui de um sexto zang, no sentido próprio do termo. Trata-se de uma função e é por isso que o Nanjing 25 diz “sem forma”.

Esta função é, portanto, muito semelhante àquela evocada por Danzhong no Suwen 8: o Senhor é guardado, protegido; mas deve também comunicar, expandir sua influência. Um soberano cortado de seu povo já não é soberano; ele se torna imperador do Japão, confinado na sua aposentadoria, enquanto o Shogun reina.
Esta função não é dissociável do Coração. A influência exercida por um rei sobre seu povo é sua e não a de um servo; as ordens são suas e não as de um outro, as relações lhe pertencem e é ele que é comunicado. Todos os aspectos do sangue são dependentes uns dos outros e compenetrados, como o Fogo que é o mesmo que aclara e que aquece e permite cozinhar os alimentos ou assustar as feras (cf. duplo aspecto do sangue).

Compreende-se então que há apenas um zang, o Coração, que tem uma dupla expressão, na forma e no sem forma.

O Mensageiro (shi )

O caractere shi: agente enviado em missão, mensageiro que faz executar as ordens  do Mestre, servidor que propaga e assegura, em toda parte, a presença e a autoridade do Mestre, faz parte do cargo do Danzhong. Ele é encontrado no nome do quinto ponto do meridiano Jueyin da mão, Mestre-Coração, Jianshi e somente no nome deste ponto[12].

No nível do Jianshi (M.C.5) tem-se uma relação especial com o Pulmão, responsável pelos sopros de todo o organismo, pois este é o ponto metal, elemento próprio do Pulmão. Há transmissão e comunhão entre os mecanismos do Coração e os de seu ministro de Estado, pois sangue e sopros não são separáveis.

O caractere shi é encontrado freqüentemente associado diretamente à presença dos espíritos do Coração:
“Os espíritos ativam os sopros (shen shi qi) e os sopros determinam as formas.” (Shiji, cap. 25)

Assim, no Suwen, cap. 14, o Imperador Amarelo pergunta qual a razão do marasmo e de um declínio fatal quando nada no diagnóstico fisicamente, explica a impossibilidade de se restabelecer. A resposta é dada em três caracteres: “os Espíritos não mais operam” (shen bu shi), para dizer que o Mestre, ao já não fazer sua presença ser sentida devido ao obscurecimento dos Espíritos pelas paixões, faz as funções vitais se desorganizarem sem volta possível.

O Laozi 55 diz que “O coração ativa os sopros” ( xin shi qi) para indicar que o Senhor Mestre é responsável por toda a atividade vital pelo intermédio de seus mensageiros e criados.

Na prática do Qigong, o mental e a disposição interior não conduzem tanto os sopros quanto os movimentos do corpo? Estes movimentos físicos, além disso, só são bem realizados quando o Coração os acompanha e os guia.

O desregramento da propagação e da força dos sopros, como ajudante dos Espíritos, é um dos aspectos mais marcantes da patologia de Jianshi (M.C.5)[13]. Pavor e convulsões por falta de força dos sopros para os Espíritos, dificuldade respiratória e bloqueio no peito por vazio dos sopros, temor do frio e do vento... Sintomas de excitação do calor, como loucuras furiosas, queimaduras e calor..., são exemplos da perversão dos mensageiros.

“O Coração comanda o sangue (xin zhu xue); as proteções e conexões (bao luo) comandam as circulações vitais (zhu mai); tem-se aí as conjunções recíprocas entre o Senhor e o ministro. Jianshi (M.C.5) é o emissário que serve de intermediário entre o Senhor e o ministro (jun xiang jian xing zhi shi dao). [.......... ] O sangue vem das transformações operadas pelos espíritos do Coração (xin shen zhi hua) ; as circulações do sangue (xuemai) do Coração e do Baoluo (proteções e conexões) se compenetram; sangue e sopros que saem do Coração são enviados para circular (jian xing) nos meridianos Shaoyin e Jueyin da mão.”(Zhang Zhicong)

Os dois meridianos Shaoyin e Jueyin da mão são, portanto, uma dupla expressão do Coração e do sangue que se distribui a partir dele (conforme o Nanjing 25). O primeiro, Shaoyin, estaria mais para o lado do sangue como manifestação da vida que vem dos Espíritos, enquanto que o outro, Jueyin[14] , estaria mais para o lado da circulação do sangue pulsado pelos sopros.

O olho é o mensageiro (shi) do Coração. Cf. mais à frente, Orifícios do Coração.

A Rede de Relações do Coração (xin xi)

Nos textos é encontrado uma outra expressão da relação que o Coração mantém com o conjunto do organismo, mais particularmente com os zang : trata-se da rede de relações do Coração (xin xi)[15]: as circulações que partem do Coração para ligá-lo aos órgãos do corpo, apegá-los ao Coração e fazê-los depender do Coração. Mais uma vez esta rede, que se torna sensível através das vias do sangue, é mais que sua manifestação substancial; pois o elo entre o Coração e os zang não é apenas material. A inspiração que vem do Coração é o que mantém os órgãos em seu bom funcionamento.

O Coração é o Grande Mestre

Freqüentemente os pontos do meridiano Xinzhu (Jueyin da mão) são dados como pontos a serem considerados e tratados quando falamos do meridiano do Coração, muito mais que os pontos do Shaoyin da mão.

“O Coração (xin) sai em Zhongchong (M.C.1), na extremidade do dedo médio; é o poço, a madeira...” (Lingshu 2)

A explicação é dada em Lingshu, cap. 71. Após uma apresentação detalhada do trajeto do meridiano Xinzhu (Jueyin da mão), o texto continua:

“Huangdi: Porque o mai do Shaoyin da mão é o único a não ter (pontos) shu?
Qi Bo: O Shaoyin é o mai do Coração; o Coração é o grande-mestre (da zhu) dos Cinco zang e dos Seis fu; é aí que mora o Espírito vital (essências/espíritos, jing shen). Quando este zang está sólido e firme, os perversos não conseguem entrar. Mas se eles entram, o Coração é prejudicado. Se o Coração está prejudicado, os Espíritos partem, e quando os Espíritos partem, é simplesmente a morte. É por isso que, quando os perversos estão no Coração, na verdade são nas proteções e conexões do Coração (xin bao luo) que eles estão. Estas proteções e conexões são o mai do Mestre-Coração (Xinzhu = Jueyin da mão). Eis porque ele apenas (Shaoyin da mão) não tem (pontos) shu.
Huangdi: Se o Shaoyin não tem (pontos) shu, ele não tem doença?
Qi Bo: O meridiano no exterior está doente, mas o zang ele próprio não está doente. É por isso que só tomamos este meridiano na extremidade do osso pontudo, atrás da palma (ou seja, o ponto Shenmen, C.7).” (Lingshu 71)

Pode-se compreender que não haja, sobre o meridiano do Coração, Shaoyin da mão, pontos correspondendo aos Cinco elementos ou, de uma maneira mais geral, pontos que permitem acesso direto ao zang pelos perversos.

Entretanto os pontos shu do Shaoyin da mão existem, e eles são reconhecidos desde muito antigamente, desde o Jiayijing, com suas correspondências aos Elementos. Tratar-se-ia de duas escolas? É possível. De toda maneira o problema se coloca: há Seis meridianos para Cinco elementos. Quando se considera os pontos justamente ditos “dos Cinco elementos”, que são certamente os que o Lingshu 71 chama “pontos shu” ou “transpontos”, pontos de transferência, e que são os únicos em causa no Lingshu 2, como resolver a dupla presença do Fogo? Há apenas um ponto Fogo entre os pontos dos Cinco elementos, deveria haver apenas um meridiano representando o Fogo, como um sopro particular, uma atividade específica. É portanto normal se referir ao meridiano Xinzhu ou Jueyin da mão, como ligado à atividade particular do Coração expressando o Fogo ministro, que é a de pulsar o sangue por todos os lugares do território corporal. O outro meridiano, Shaoyin da mão, representa o Fogo como luz, o Fogo soberano.

O Coração é então chamado, “o grande mestre dos Cinco zang e dos Seis fu”, pois ele é ao mesmo tempo um dos Cinco zang e o Um, a unidade dos Cinco zang. Sendo um dos Cinco zang, seu meridiano representa o Fogo perceptível e acessível ao tratamento pelos pontos que representam cada um dos Cinco elementos, onde se regula o funcionamento do órgão. Sendo a unidade dos Cinco zang, seu meridiano está além do jogo das Cinco qualidades de sopros. É por isto que o único ponto mencionado, sobre o Shaoyin da mão, é aquele que dá acesso aos espíritos do Coração, a “Porta dos espíritos”: Shenmen (C.7).

Coração e Espíritos

Espíritos e Coração têm uma relação específica. O Coração, soberano e mestre da vida, é o “lugar” por excelência da presença dos espíritos, já que meu Coração sou eu e que os espíritos me permitem ser eu.

“O Coração entesoura (cang) os espíritos (shen).” (Suwen 23 & 62)

“O Coração entesoura os mai (circulações vitais) que são a morada dos espíritos.” (Lingshu 8)

Ele está ligado ao espírito vital (jing shen), pois o espírito vital representa ao mesmo tempo o resultado da vida conduzida (pensamento, desejos, ações...) e a orientação a partir da qual esta vida é guiada. O espírito vital de um homem é este homem mesmo, em sua relação com o Céu, com a ordem cósmica que o fez nascer e lhe deu as potencialidades a serem desenvolvidas.

O Coração (xin) é a produção do sangue, e sua circulação é o batimento regular que é testemunha da vida; mas é também a vida afetiva, emocional, intelectual, mental, espiritual; é tudo que se faz em mim e pelo qual eu tenho o sentimento de existir. Meu Coração é, então, eu, a unidade misteriosa e composta que sou eu; a unidade daquele que vive, que é e que se faz; o que eu sou, como eu sou, como eu vivo.

O Coração é o centro (zhong)[16]: ele recolhe, interpreta, guarda ou rejeita informações, conhecimentos, sensações, percepções, que vêm da periferia pelo intermédio dos órgãos dos sentidos (os orifícios da face), ou que sobem da memória... Ele é também o centro de emissão de reações que comandam os movimentos dos sopros. O Coração de um homem é o que permite ao ser humano assegurar e assumir seu destino, ter um agir fundado sobre um conhecimento real, que é um savoir-faire, uma sabedoria (zhi)[17]. Caso contrário, é a desordem, a doença, a morte prematura.

As reações do Coração dependem do que nos é caro: ideias, tendências, preconceitos, emoções... Antes de tudo, elas dependem daquilo que faz com tais idéias ou emoções encontrem lugar em mim, da disposição profunda do Coração, da maneira pela qual ele se orienta no mais íntimo, o que é chamado com freqüência de propósito ou disposição interior (yi). É uma experiência comum que não reagimos da mesma maneira às palavras que vêm de alguém que gostamos e às palavras que vêm de alguém que não gostamos. Se estivermos alegres, não seremos afetados da mesma maneira que quando estamos tristes ou encolerizados. Assim, a disposição do Coração (tenhamos ou não consciência do que ela é) afeta todas as nossas reações.

“O homem possui, por natureza (xing), sangue-e-sopros (xue qi) e um Coração que permite o conhecimento (xin zhi). A aflição assim como a alegria, a alacridade assim como a cólera, não existem permanentemente nele, são movimentos reacionais às incitações dos (outros) seres. É então que intervém a arte do Coração (xin shu).” (Liji, Yueji)

A calma e a quietude, a arte do Coração, não são a negação dos movimentos e das reações que fazem a vida, são sua exatidão, a temperança que afasta os arrebatamentos e transbordamentos, é o restabelecimento perpétuo de um equilíbrio feito de sopros e de sangue, de carne e de osso, de sentimentos e de pensamentos...

“Quando meu Coração regula bem (zhi), os encarregados (órgãos dos sentidos, guan) estão também bem regulados (zhi). Quando meu Coração está em paz (an), os encarregados estão também em paz. O que regula, é o Coração. O que confere a paz, é o Coração. O Coração esconde um Coração. No centro deste Coração, há ainda um Coração. No coração deste Coração, a disposição interior (propósito) procede as palavras, da disposição interior procede a tomada de forma (Xing), da tomada de forma procedem as palavras, das palavras procedem a tomada de ação (shi), da tomada de ação procede a regulação (zhi). Sem regulação não se escapa à desordem (luan), uma desordem que leva à morte.” (Guanzi, Neiye)

O Coração do Coração não é tanto um encaixotamento físico quanto um aprofundamento espiritual. A plena realização de seu Coração[18] permite compreender sua natureza e realizar seu destino, de atingir o Coração do universo e de fazer assim circular em si o sopro vivificador.

“O que o homem de bem considera como sua natureza – senso do humano, do justo, dos ritos e discernimento – toma raiz no coração, e irradia sobre a face, corre ao longo da espinha dorsal e se espalha nos quatro membros, os quais, sem nenhuma necessidade de discurso, o deixam transparecer.” (Mencius VII A 21, trad. Anne Cheng)

Não há nenhuma descontinuidade entre o Coração que caminha em direção a uma autenticidade cada vez mais enraizada e o sangue que se espalha nos membros e os empurra a se mexerem espontaneamente da maneira apropriada. A continuidade do visível, do conjunto corporal (que tem forma) e do espiritual (sem forma) é assegurada pelo e no Coração.

O Coração é a unidade que funda meu ser próprio. Os espíritos que habitam o Coração são também o Um, expressão do Céu. Eles se manifestam em cada um dos Cinco zang como seu movimento natural e tomam um nome particular em cada um deles. São as Cinco expressões, manifestações dos espíritos ou as manifestações dos espíritos pelos e nos Cinco zang[19].

“Sim, o coração é o mestre das Cinco vísceras (zang), ele regula o uso dos Quatro membros, ele faz correr e circular o sangue e os sopros, ele galopa sobre a fronteira do sim e do não, ele vai e vem pelas portas e aberturas dos Cem afazeres.” (Huainan zi, cap.1)

“As Cinco vísceras podem se colocar na dependência (shu) do Coração e não se distanciar, qualquer que seja a exaltação da vontade (zhi) , a conduta (xing) não se desvia. Assim os Espíritos vitais (jing shen) estão em super  abundância (sheng) e nada se dissipa (san) dos sopros. Abundância de Espíritos, plenitude dos sopros, tudo está ordenado, (li) , equilibrado (jun) , compenetrado(tong): é o Estado espiritual (shen).” (Huainanzi 7)

“É no Coração que tudo é submetido como a um soberano (zhu)” (Huainanzi 7)

Poderíamos nos espantar que o Coração, Um e unidade por excelência, seja o órgão escolhido para ser desdobrado. Mas o Um não se exprime sempre no e pelo Dois? A unidade no múltiplo? O Coração que é Um é inacessível permanecendo ao mesmo tempo bem real e fundamento de tudo que aparece. O desdobramento do Coração é manifestação, efetuação; não é, em nenhum caso, uma divisão. Aquilo que é invisível se torna perceptível. Os dois aspectos do Coração são contidos dentro da Unidade do Coração.

O DUPLO ASPECTO DO SANGUE

“Tudo o que é sangue presta obediência ao Coração”. (Suwen 10)

Mesmo que a substância sanguínea se elabore no Aquecedor Médio, com o trabalho particular do Estômago e do Baço para reconstituir a riqueza líquida do corpo, é o Coração que confere ao sangue sua qualidade própria, perceptível em sua cor vermelha. Ele é o doce calor da vida e ele tem a presença dos espíritos.

“Ora, o Coração (xin) é o soberano do corpo (xing zhi zhu) e o Espírito (shen), a jóia do coração (xin zhi bao).” (Huainanzi 7)

“Nutrição e defesa são essências-sopros (jing qi); enquanto que o sangue consiste em espíritos-sopros (shen qi).” (Lingshu 18)

“O sangue-e-sopros (xue qi), são os Espíritos (shen) do homem. ” (Suwen 26)

O sangue dá a vida[20] através de seu aquecimento, pelos seus princípios nutritivos, pela presença dos espíritos; ele se infiltra e se espalha por todo o organismo, pelas grandes artérias assim como pelos mais ínfimos capilares. O Coração assegura assim seu papel de soberano, favorecendo a vida de todos os órgãos e inspirando-os, fazendo sentir sua presença e suas diretivas em todos os lugares.

O sangue nutre e aquece, circulando nos mai, que são a orientação e a animação de todas as circulações vitais. Ele tem a cor vermelha que corresponde ao Fogo, e também o calor doce que permite o pleno desenvolvimento.

O sangue é também os espíritos que circulam e se tornam presentes nele e através dele. O sangue é diferente de todos os outros líquidos corporais, pois ele é o mensageiro dos Espíritos, o portador da consciência. O líquido vermelho do sangue, bem visível e tangível, abriga a invisível presença dos espíritos; eles propagam em todos os lugares, assegurando a coesão do ser, as percepções e as sensações, a sensibilidade e o conhecimento.

Os espíritos não circulam no sangue como partículas carregadas por ele. Mas o seu influxo circula porque o sangue circula. Quando sangue e sopros são capazes de penetrar em todos os lugares sem obstáculos e sem desequilíbrio[21], então os espíritos estão lá e a relação imediata com o Coração, enquanto sua morada, se efetua. Assim sente-se imediatamente o quente ou o frio, uma dor ou uma comichão, qualquer que seja o lugar no corpo onde apareça.
Aquilo que sente sou eu, é meu Coração. Como eu sinto: por causa da circulação do sangue que liga todos os lugares à presença dos espíritos em meu Coração; e como estes espíritos são exatamente o que me tornam capaz de sentir, ressentir, perceber, conhecer, ter consciência, a sensação chega a meu Coração. A relação do centro com a periferia passa pelo sangue.

Daí vêm as relações do sangue com certas funções da medicina ocidental, como o sistema nervoso central, em particular no que concerne as percepções, a dor...

A vida que o Coração deve assegurar é a harmonia yin/yang, expressa no homem através da harmonia de sangue e sopros (xue qi), percebida nos pulsos (mai).

“O Coração se reúne com as circulações vitais (mai). Seu esplendor está na tez. ” (Suwen 10)

A circulação regular de um sangue de qualidade pulsado através de sopros proporcionados, dá a tez da boa saúde; as alterações – tanto de tez quanto de pulsos – informam sobre as perturbações desta circulação e, portanto, do Coração, através do detalhe das perturbações de cada órgão, de cada atividade dos sopros.


Passagem da apostila ‘”O Duplo Aspecto do Coração”, editada pela E.E.A . Tradução de Andréa Jacusel.





[1] Meridiano correspondente ao Xinbaoluo (proteções e conexões do Coração), por vezes traduzido de maneira imprópria como “pericárdio”.
[2] O ritmo dos batimentos do Coração faz eco, ou melhor, expressa e realiza, o ritmo original, o batimento yin/yang que desencadeia o processo de formação do meu ser na origem. O mesmo caractere (dong) é utilizado para os batimentos do Coração e para os batimentos, imperceptíveis, dos sopros que formam minha origem: “Os sopros que batem (dong qi) entre os Rins, sob o umbigo, é o destino vital do homem, o enraizamento dos Doze meridianos. Os chamamos então: fonte (origem, yuan).” (Nanjing 66)
Tem-se aí um dos exemplos da relação entre o Coração e a origem, onde o Coração manifesta autenticamente a potencialidade original.
[3] Todos os luo, conexões, circulações que tecem a rede de relações entre um meridiano e os lugares e funções que ele regula ou serve, são mai. São luomai, sejam eles grandes luo ou as circulações mais superficiais (fu luo), as mais finas (sun luo).
[4] . O sangue nunca faz parte dos “líquidos corporais” (jin ye). Ele é único do gênero, como atesta a sua cor vermelha.
[5] As linhagens ancestrais (zong) são a base da sociedade e a fundação do Império; elas poderiam ser, no organismo, os princípios diretores que mantém a continuidade, a coerência no trabalho dos sopros (sopros ancestrais, zong qi) , na força muscular (músculo ancestral, zong jin)... etc. Seu enfraquecimento desorganiza o ser.
[6] Por alacridade e alegria, cf. mais à frente As emoções do Coração.
[7] O mesmo caractere (xiang) é utilizado para o Fogo ministro (xiang huo) e para o Pulmão, ministro e chanceler (xiang fu) do Coração.
[8] “O Pulmão é encarregado do ministro e do chanceler; daí procede o controle dos ritmos.” (Suwen cap.8)
[9] “Os sopros dos mai se escoa para os meridianos (jing); os sopros dos meridianos se reportam ao Pulmão; o Pulmão recebe em audiência os Cem mai.” (Suwen 21)
[10] Danzhong é também o nome e o local do ponto RM 17. O mar dos sopros encontra-se com bastante normalidade sobre o meridiano extraordinário responsável do yin, pois o yang sempre se renova graças ao yin, e dele provém.
[11] Termo que será empregado para designar a “Cidade Proibida”, residência dos Imperadores, em Pequim.
[12] Se considerar apenas os nomes principais dos pontos.

[13] Cf. Os pontos do Mestre-Coração, fascículo do Instituto Ricci.
[14] O Jueyin da mão está em relação frente/verso (biao/li) com o Shaoyang da mão. O mensageiro (shi) é também um caractere chave para o fu ligado ao Mestre-Coração: o Triplo Aquecedor. Ver, por ex., Nanjng 66.
[15] É interessante observar que a etimologia tradicional faz alusão à imagem da fibra de algodão ou de seda para os dois caracteres luo e xi.
[16] O centro é o que harmoniza, é a composição harmoniosa de todos os elementos. Centro e harmonização andam em par: zhong he (cf. Liji, Zhongyong)
[17] Cf Os Movimentos do Coração, DDB.
[18] De acordo com o título do capítulo VII do Mencius.
[19] Estes são Shen, Hun, Po, Yi (propósito) e Zhi (vontade). Cf. Os espíritos, Revista Francesa de Acupuntura, n°117.
[20] Cf. LS 18 : “É o sangue, que leva a vida ao ser; não há nada mais precioso.

[21] O equilíbrio yin/yang da vida se manifesta totalmente na dupla sangue e sopros. A realização perfeita deste equilíbrio permite a compenetração perfeita; é a harmonia que nada mais é que a vida espiritual.

Capítulo II do SUWEN - vídeos legendados em português

Esse curso é o primeiro que a EEA disponibiliza em VOD. Através do capítulo II do Suwen, ele apresenta a visão tradicional chinesa das est...