sábado, 26 de novembro de 2016

A TRISTEZA * - 悲 - BEI


Elisabeth Rochat de la Vallée


A TRISTEZA SENTIDA NORMALMENTE

Tristeza e aflição, antes de serem patológicas, são reações, sentimentos normais e desejáveis. Na morte de um pai, a tristeza devora interiormente. Não se deve nem negá-la, nem impedi-la; mas expressá-la:

“Enquanto levantava-se o caixão (para preparar o enterro) o filho chorava, se lamentava e saltava um número de vezes indeterminada. Sob o peso da dor e da opressão em seu Coração, na penível agitação de seu espírito (yi), nas garras da tristeza e da aflição (bei ai 悲哀), desnudava o braço esquerdo e saltava, a fim de acalmar seu Coração (an xin 安心) e de fazer descer seus sopros (xia qi 下氣), colocando seus membros em movimento.” 
(Liji,  Livro dos Ritos, Couvreur II,p.7553, tradução revisada)

Observa-se que o colocar o corpo em movimento impede os sopros de se bloquearem no peito, o que facilitará o retorno ao normal.
Pode-se dizer também que as manifestações exteriores da tristeza associam esta última com os movimentos e gritos rituais. A diminuição desta manifestação, sempre de acordo com as prescrições rituais, traz também a diminuição da tristeza, ao mesmo tempo porque se autoriza estar menos triste e porque a ligação estabelecida entre a tristeza e suas manifestações incita naturalmente a uma redução comum.
Se o luto e a tristeza são normais, eles não devem durar. Ao fim de três anos (de fato frequentemente 25 meses, um mês do terceiro ano contando pelo último ano inteiro), deve-se retomar sua vida normal:

“Um filho, na morte do seu pai, chorou sem interrupção por três dias seguidos; durante três meses, não tirou nem a faixa, nem o cinto de cânhamo; durante um ano (chorou dia e noite) com um profundo sentimento de tristeza (bei ai 悲哀); sua dor (opressiva, you ) durou três anos. Assim, as provas de afeto foram diminuindo. A dor diminuindo com o tempo, os antigos sábios haviam determinado de que modo sua manifestação devia decrescer gradualmente. Eis porque a duração do luto foi fixada em três anos, e não foi dado aos mais sábios prolongá-la, nem aos menos sábios diminuí-la.” (Liji, Livro dos Ritos, Couvreur II, p.704, tradução revisada)

A tristeza que chega ao estado de aflição é, portanto, o próprio sentimento experimentado diante da morte, aquele sentimento que o “filho piedoso” deve experimentar na morte de seus pais e, antes de tudo, na morte de seu pai. É o luto conduzido, o sentimento que acompanha a partida definitiva do vivente que lhe transmitiu a vida.
O Livro dos Ritos está repleto de considerações sobre a tristeza e a aflição; descreve suas manifestações físicas, as alterações da aparência, as atitudes do luto da alma; mostra como os gritos, prantos, saltos de dor ... são maneiras de tornar a tristeza suportável, de diminuir a intensa aflição pelo movimento dado assim ao corpo, e como todo o processo deve, no decorrer de Três anos, devolver a paz ao Coração 
do aflito.
De imediato podemos notar como a tristeza e a aflição golpeiam repetidamente o profundo sentido de existir, a vivacidade que busca expressar-se, surgir e desprender-se continuamente. Guarda-se o luto de um pai; mas não para sempre, por três anos. Estender o luto além desse prazo seria um excesso; negar a realidade, mesmo que dolorida, agrava o sofrimento e destrói a saúde. Guardar o luto de si mesmo, experimentar o sentimento da perda da vida, enquanto ainda estamos em vida, é uma grave perversão. A vida se vinga e a morte nasce do próprio luto, pois abalamos, perturbamos o interno, ferimos o centro da vitalidade, voltamos as costas à razão.

 A TRISTEZA, SENTIMENTO DO PULMÃO
A tristeza  bei : o Coração  que (se) recusa  : a pessoa dando as costas para si mesmo dentro de seu Coração, vítima das contradições, negação, e, até mesmo, da negatividade. O esgotamento que resulta desta luta estéril destrói os sopros na região do Coração e do Pulmão. Esta oposição se torna ruptura das comunicações que emanam do Coração e separa da alegria da vida; o bloqueio se torna fraqueza, e a dor, desolação.

“Quando as essências e os sopros anexam o Pulmão, há tristeza (bei ).” (Suwen  23)

A tristeza corresponde ao Pulmão e é a perversão do movimento do metal. Este último tem o fio das espadas e das foices que cortam as cabeças ou recolhem os cereais. Ela é assim o ritmo que marca o fim da expansão yang e o início do retorno ao yin. O Metal é condensação e concentração, a fim de recolher as riquezas da vida no interno. Na tristeza, ele se torna compressão que esmaga o Coração, perturbando tanto a circulação do sangue cuja qualidade está diminuindo quanto a expansão dos Espíritos; esta obstrução aniquila também os líquidos e os sopros do Pulmão.

“Quando há tristeza, os sopros desaparecem ( xiao ). [.........]
Quando há tristeza, o sistema das conexões próprio ao Coração (xin xi 心繫) se comprime, o Pulmão se dilata e suas folhas se levantam; o Aquecedor Superior já não assegura suas livres comunicações; reconstrução (nutrição) e defesa (ying wei 營衛) não mais se difundem; os sopros quentes estão no centro. E é assim que os sopros desaparecem.”(Suwen  39)

É o oposto da alacridade, que permite que a reconstrução, assim como a defesa, se propague facilmente. Ao contrário, a tristeza comprime o Coração; o que não é uma metáfora, pois o exagero da concentração própria ao Metal fecha as vias pelas quais o Coração comunica.
O sistema das conexões próprio ao Coração é primeiramente a ligação do Coração com os outros órgãos, ligação imaterial e espiritual, mas que se torna visível pelas circulações sanguíneas, em particular as artéria que partem do Coração. Os sopros do Pulmão, tomados de tristeza, bloqueiam as passagens e as circulações de sangue e sopros, enquanto que eles deveriam assegurar sua propagação até os confins do corpo. Os sopros bloqueados no peito geram calor; calor que 
destrói os sopros.
Pode-se acrescentar que o Coração não mais podendo se comunicar pelo sangue e sopros, não mais consegue expandir a luz da sua razão, dar inspiração aos espíritos, manter dentro da realidade da existência.
TRISTEZA E CHOROS

A mesma situação descrita previamente explica também o escoamento de lágrimas, eventualmente acompanhadas de catarroque acompanha a tristeza.

“Se o Coração é tomado pela tristeza os líquidos corporais (jin ye 津液) dos Cinco zang e dos Seis fu sobem todos infiltrar o olho; e então os sopros são anexados (o ocupam indevidamente, todos juntos, bing ), o sistema das conexões próprio ao Coração ( xin xi ) se fecha ,o sistema do Coração assim fechado, o Pulmão se levanta e quando o Pulmão se levanta os líquidos transbordam para cima. Como o sistema do Coração e do Pulmão não podem estar constantemente elevados ora eles se elevam, ora eles descem: é por esta razão que se tosse e que as lágrimas saem.” (Lingshu 36)[1]

O mecanismo é simples: a tristeza comove o Coração pela perversão dos sopros do Pulmão-Metal. O bloqueio dos sopros no peito faz dilatar o Pulmão e o impede de cumprir sua função de abaixar os líquidos no tronco; os sopros, impedidos de descerem pelo calor que reina no peito, crepitam em direção ao alto, pulsando os líquidos em direção ao exterior. Estes líquidos saem pelo olho, por vezes também pelo nariz, orifício próprio do Pulmão; os sopros e líquidos podem também fazer como uma bola na garganta e emitir sons que são os dos soluços.
O escoamento das lágrimas é, por outro lado, ligado ao cérebro, órgão rico em essências e em fluidos preciosos e densos, e em comunicação com os orifícios da face (olho, nariz, orelha). O cérebro é percorrido pelo meridiano ligado ao Fígado, e o olho, o orifício próprio ao Fígado, é também o lugar de chegada do meridiano ligado ao Coração.
A irregularidade nos sopros do Pulmão explica também a tosse ou os soluços dos quais pode ser tomado aquele que é abatido de tristeza.
A TRISTEZA E O CORAÇÃO

Bem que seja o sentimento próprio ao Pulmão, pela especificidade do movimento de sopros que ela induz, a tristeza é frequentemente associada ao Coração, do qual ela impede a expressão livre e alegre. A tristeza é então o oposto da alegria, da alacridade que se manifesta pelo riso.
No Suwen, cap.62, onde o excesso de sopros do Coração se traduzia por um riso irreprimível, a insuficiência destes mesmos sopros se traduz pela tristeza. Ou ainda:

“Quando os sopros do Coração estão em vazio, há tristeza (bei ); quando eles estão em plenitude, ri-se sem poder parar.” (Lingshu 8)

Examinando os pares de caracteres que expressam os sentimentos, releva-se, de maneira habitual, a alacridade pareada com a cólera e, paralelamente, a alegria ora pareada com a tristeza (bei ), ora com a aflição (ai ).
O caracter para a aflição, ai , representa os gritos, gemidos e lamentações que saem da boca  daquele que trajou as vestes  próprias de luto. A aflição que se experimenta na perda de um ente querido; a dor do luto, publicamente manifestada.
Tristeza e aflição são o oposto da alegria de viver, da alegria do Céu, própria a toda vida humana, que se aceita e se possuiA tristeza se torna uma recusa da vida. Em um sentido patológico, os movimentos e reações que implicam a tristeza se opõem àqueles que implicam uma alegria transbordante, até mesmo delirante.
A tristeza aparece regularmente como o sentimento que se experimenta quando os sopros do Coração estão bloqueados ou sem força para circular.

“Dores de cabeça devido a um refluxo (ou flexão, jue ) onde as circulações (mai) na cabeça estão dolorosas, o Coração está triste (bei ), tem-se a tendência a chorar (shan qi 善泣) ...” (Lingshu 24)

Pode-se compreender que o Fígado empurra os sopros em contracorrente em direção ao alto, onde as circulações de sangue e sopros, congestionadas, se tornam dolorosas. Mas ao mesmo tempo ele impede o Pulmão de fazer descer e induz um bloqueio em seu nível. O Coração não mais se beneficia de um impulso propiciado pelo Fígado para ajudá-lo a fazer circular, mas sofre do bloqueio; de onde vem a tristeza. A tendência a chorar é forte, pois a contracorrente vinda do Fígado faz pressão sobre os líquidos no olho.
Quando se fala do bloqueio de sopros, da dificuldade a fazer circular o sangue, do dano causado ao Coração e da falta de comunicação deste último, enuncia-se na verdade a disfunção daquilo que deve proteger o Coração e fazê-lo comunicar-se com o resto do ser:
o Xinbaoluo (心包絡) ou proteção (bao ) e conexões (luo ) próprias ao Coração (xin )[2].

Assim quando se descreve uma situação onde os perversos prejudicaram o Coração, fala-se na verdade de uma situação onde o Xinbaoluo está prejudicado, ou seja, uma situação onde o sistema de conexões próprio ao Coração está perturbado, impedindo-o de realizar sua tarefa.

“Quando os perversos estão no Coração, o doente tem cardialgias com uma tendência a estar triste (xi bei 喜悲 ); por vezes ele cai para trás sem consciência.” (Lingshu,  20)

Os sopros perversos fazem pressão sobre a região do Coração. A tristeza aqui não é um sentimento devido a um luto ou a um evento real, ela é o resultado de uma mudança induzida no mental, na sensibilidade, ou seja, no Coração, pelo bloqueio dos sopros.
Se este bloqueio se agrava, as comunicações são completamente fechadas; o Coração, os espíritos, a faculdade de estar consciente, já não estão presentes no nível dos órgãos e sentidos,
e perde-se a consciência.
Ao contrário, a tristeza compromete a boa distribuição do sangue, impede as proteções e conexões do Coração (Xinbaoluo) de comandar regularmente as circulações sanguíneas (xue mai 血脈). Os efeitos perversos podem prejudicar diferentes partes do corpo, como o baixo-ventre, onde o útero coleta o sangue e onde o Intestino Delgado guarda separados os líquidos corporais e o 
sangue controlando seu fogo.

“Quando tristeza e aflição (bei ai 悲哀) são intensas, as proteções vitais e suas conexões (bao luo  ) se rompem (jue ); estando rompidas, os sopros yang (yang qi 陽氣) se agitam no interno (nei dong 內動). Quando isto se desencadeia, o Coração faz descer sob forma de hemorragias uterinas e frequentes hematúrias.” (Suwen,  44)

O Suwen, cap.39, nos mostrava a tristeza fazendo obstáculo às circulações que partem do peito, e como os sopros bloqueados desaparecem, destruídos pelo calor. No Suwen, cap.44, as conexões próprias às proteções vitais se interrompem sob a pressão dos sopros, e os sopros yang, aprisionados, se excitam e criam a agitação. O sangue sai dos seus condutos, e até mesmo do corpo, sob a pressão do calor.

A expressão “as conexões próprias às proteções vitais (bao luo 胞絡)”, pode-se entender aqui de várias maneiras :

- Como sendo o Xinbaoluo (心包絡), os envelopes que protegem o Coração e as redes de conexão que emanam dele para ligar todo o ser ao Coração; centro da vitalidade consciente e mestre da circulação regular do sangue. O calor excessivo na região do Coração perturba a norma de circulação que ele dá ao sangue; a manifestação se faz ao nível do orifício inferior anterior.
- Como sendo o meridiano extraordinário Chongmai, que estabelece a primeira norma de organização da circulação do sangue no ser em formação e que se difunde no peito.
- Como sendo os trajetos de sopros ligados ao útero, onde uma nova vida recebe envolvimento e proteção, em relação com os Rins da mulher.

Qualquer que seja o caso há um desenvolvimento de forma imprópria dos sopros, pois obstrução e calor provocam abalos no interno; a defesa e as comunicações do Coração estão mal asseguradas; os Rins assim como o Fígado estão implicados.
O Fígado está implicado por várias razões: entesoura o sangue, isto é, regula a quantidade de sangue a ser conservada como reserva, ou a ser liberado no corpo para um esforço muscular, para as menstruações... etc. Ele dá o impulso para as circulações e as emissões, até que estas tenham saído do corpo; assim, ele participa da regulação dos orifícios interiores. Quando privado de essências, de yin, que contrabalançam seu dinamismo viril, o Fígado se arrebata, gerando um calor que produz essas circulações erráticas do sangue no baixo – ventre. O Intestino Delgado, associado ao Fogo, é particularmente sensível a este calor; ele pode perturbar o seu funcionamento e provocar hematúrias. O Coração pode igualmente transmitir seu calor ao Intestino delgado.
A TRISTEZA E O FÍGADO
Já foi visto o Fígado implicado diversas vezes nas patologias ligadas à tristeza. Ele é apresentado seja como a causa principal da tristeza, seja como a função que sofre. Que o Pulmão-Metal domine o Fígado-Madeira no ciclo de dominação (ke) não é estranho a este fato.

“Em caso de tristeza (bei ), os sopros do Pulmão encavalam (usurpam os do Fígado)”.(Suwen 19)

Como no Lingshu, cap.24, analisado previamente, a agitação do Fígado, produzida pelo vento, induz uma contracorrente de sopros que perturba e enfraquece as comunicações do Coração e faz com que se sinta tristeza.
Mas a tristeza também prejudica o Fígado porque o desaparecimento de sopros, corroídos interiormente, priva o Fígado do dinamismo necessário ao seu bom funcionamento.

“Quando o Fígado é acometido pela tristeza e pela aflição (bei ai 悲哀), o indivíduo se comove no centro, os Hun ficam prejudicados. Prejudicados os Hun, o indivíduo perde a razão (kuang , loucura) e se torna esquecidiço; está sem essências (jing ); estando sem essências, não mais consegue assegurar a norma; é a situação onde o aparelho yin se contrai, onde o muscular se crispa, onde as costelas de um lado e de outro já não podem elevar-seOs pêlos se tornam quebradiços, e aparecem todos os sinais da morte prematura. Morre-se no outono.”
(Lingshu 8)

A tristeza se opõe ao impulso alegre em direção ao desabrochar, que é próprio ao Fígado. A tristeza é uma recusa. Ela contradiz nosso próprio desejo de ir adiante. Por que você está tão triste? Porque perdeu o gosto pelo esforço espontâneo que constitui o movimento vital.
A tristeza se torna uma inversão da vitalidade. Ao invés de estender seus ramos e suas folhas em todas as direções, esta planta na primavera, que eu sou, volta seu ímpeto contra si mesma. Agrido, então, minha interioridade.
O efeito produzido é inevitável. As almas Hun, que são inteligência e sensibilidade, reflexão e imaginação, contrariadas em sua emanação e livre movimento, apavoram-se e esquecem-se de si mesmos. Uma loucura que chega até a fúria. A raiva está associada ao esquecimento, pois não mais se pode retornar à sua própria memória, chegando até a destruição da própria personalidade.
O Fígado se esvaziando de sua substância, não tem mais como manter os Hun, como retornar à razão. O sangue não mais oferece um lugar de expressão aos Hun, pois ele está desnaturado pela agitação e pelo o contato com o Coração que se tornou difícil, devio ao bloqueio de sopros. As essências que se expressam no sangue do Fígado terminam por faltar.
A ausência de essências, quando relacionada ao Fígado, perturba a retidão pela qual se conduz a vida, já que esta retidão depende da fidelidade dos Hun à inspiração dos Espíritos.
A Vesícula Biliar, o aspecto mais yang, mais viril do Fígado, está implicada, pois ela não mais assegura a retidão e a justeza das condutas.
O desatino se torna normalidade; os sopros corretos já não podem ser liberados pelas essências deficientes. O centro está abaladoa norma já não tem em que se fundamentar.
Alguns dizem que o yang do Fígado e da Vesícula Biliar, forte em demasia, torna-se inflamação, fogo que se volta em direção ao Pulmão-Metal, para danificá-lo pela inversão do ciclo de dominação (ke ); interessante expressão da involução, que volta contra si suas forças vivas, em vez de expandi-las.
Estando o sangue desviado de seu caminho, e as comunicações com o Coração interrompidas, como os Hun poderiam receber a iluminação dos Espíritos do Coração, para ajustar-se a eles e os seguir fielmente?
Os Hun já não estando inspirados e a perca de sangue diminuindo as essências, o cérebro enfraquece; as essências não mais resplandecem a presença dos Espíritos para o bom funcionamento dos orifícios superiores. A inteligência e a clareza, que estão na dependência dos Hun, ficam prejudicadas; daí os fenômenos de loucura e de esquecimento. Esta é uma loucura furiosa (kuang ), pois se trata de um calor e uma agitação yang.

O Fígado tem maestria sobre a atividade muscular, isto é, dá o dinamismo e o vigor que constitui a força do movimento, ao mesmo tempo em que libera a quantidade de sangue necessária pelo músculo requisitado para o esforço. Se no Fígado as essências estão ressecadas, não mais há sangue suficiente para irrigar os músculos; onde, então, nós e crispação se manifestam. O lugar central, no baixo ventre, na região do períneo, é percorrido pelo meridiano do Fígado que sustenta a musculatura dos órgãos genitais; ele se contrai e se retrai, não mais podendo se expandir.
As costelas são percorridas pelos meridianos do Fígado e da Vesícula Biliar. A imobilização desta região é uma consequência da retração do aparelho genital e do crispamento da musculatura. É também a região onde está localizado o Fígado: sinal que o dano atingiu seu ponto máximo de involução.
Os efeitos devastadores da tristeza que nasce no interno e muda a vida a partir de seu centro culminam finalmente na morte - como é o caso de toda emoção perturbando de modo durável e forte o ser.
A morte ocorre no outono, estação na qual o yang cede frente ao yin, em que o movimento de volta para dentro de si deve ser iniciado. A perturbação já instalada se redobra com os efeitos da atmosfera yin que a estação do outono traz consigo. Morre-se no outono, e em qualquer período que tenha a natureza do outono. Morre quando tudo está em recolhimento – mas já não há desabrocharnem essências. Morre na colheita de sopros – mas eles estão aniquilados – e na época em que se resguardam os Espíritos - mas eles não mais são guardados pelas essências deficientes, ou confortados pelos Hun danificados.

 Tristeza e cólera
A tristeza pode gerar a cólera seguindo um processo simples. A tristeza bloqueia as circulações dos sopros, o que exerce uma pressão sobre o Fígado, perturba seu dinamismo. O bloqueio dos sopros do Fígado acarreta um calor reativo que vai aquecer o sangue e excitar o yang, induzindo uma situação de cólera. É uma evolução que se observa, por exemplo, no caso de luto intenso, onde a pessoa se coloca em cólera contra o ente querido que está morto, sem nenhuma razão particular.


* Extraído da apostila editada pela E.E.A : 'As Emoções'
http://www.acupuncture-europe.org/articles/

Tradução de Andrea Jacusiel






[1] Um texto próximo se encontra em Lingshu cap.28.
[2] Por vezes indevidamente traduzido por pericardio. Seu meridiano, o Jueyin da mão, é um dos dois meridianos ligados ao Coração, aquele que tem a mesma qualidade de sopros que  o meridiano do Fígado, Jueyin do pé. O outro meridiano do Coração é o Sahaoyin da mão.

Relação Paciente e Terapeuta

Elisabeth Rochat de la Valée Uma relação se estabelece sempre que seres se encontram. Ela é ainda mais forte quando esses seres se foca...