domingo, 8 de fevereiro de 2026

O PENSAMENTO, FUNCIONAMENTO NORMAL DO ESPÍRITO HUMANO

O PENSAMENTO OBSESSIVO 思 SI

Elisabeth Rochat de la Vallée

Tradução :Andrea Jacusiel



O caracter que se traduz de bom grado por “obsessão” quando se está na patologia das emoções é também aquele que pode designar o pensamento em suas atividades mais nobres.
O pensamento e a reflexão são bons, quando eles estão no estreito fio do savoir-faire; nada escapa então à grandeza do espírito do homem:

“Quando o pensamento e a reflexão (si lü 思慮) do homem santo estão em função do savoir-faire (sagesse, zhi ), não há nada que não esteja ao alcance de seu conhecimento.” (Guanzi, cap. 64 Xingshijie )

O Coração  sob a caixa craniana  abrigando o cérebro, juntos, forma o caracter si : Pensamento – concepção – refletir – considerar – lembrar – obsessão – preocupação – suspirar por. A boa relação do Coração – e dos espíritos que nele residem – com o cérebro permite o desenvolvimento do pensamento. Uma relação ruim, uma perturbação do Coração proveniente dele próprio ou não, alteram o desenrolar normal do pensamento e o perverte em preocupação e obsessão.
O Lingshu, cap. 10 ressalta nitidamente a ligação direta entre o Coração e o cérebro; esta conexão pode passar pela língua e olho. O meridiano do Coração, Shaoyin da mão,

“a partir do sistema do Coração (xin xi 心系), enquadra a faringe e vai se conectar (xi ) ao sistema que liga o olho ao cérebro (mu xi 目系).

E o trajeto de ligação (o luo ),“segue o meridiano, penetra no centro do Coração e se conecta (xi ) à raiz da língua; ele faz obediência (se coloca sob a dependência de, shu ) ao sistema que liga o olho (ao cérebro, mu xi 目系).”

O Coração permite a fidelidade interior e, o cérebro, o bom funcionamento dos orifícios de comunicação com o exterior. A medula do cérebro é constituída por essências refinadas e sutis que manifestam a potência original e oculta dos Rins nas alturas irradiantes do corpo, onde elas têm a capacidade de acolher os influxos espirituais.
A boa relação do Coração, e dos Espíritos que nele residem, com o cérebro permite o desenvolvimento do pensamento. São necessárias a presença dos espíritos e a potência das essências mais sutis e puras na extremidade mais alta do indivíduo, em contato com os influxos que descem do Céu, para assegurar a mais nobre função do ser humano: o pensamento que caracteriza a espécie.
O pensamento permite apreender os elementos do raciocínio ou da consideração ao encadeá-los numa linha definida. Atinge o âmago das realidades apresentadas com acuidade e penetração, de modo a possibilitar a compreensão dos fatos a qual, por sua vez, leva à conjectura e à planificação.
O pensamento desconhece a hesitação, mas permanece na consideração. O tema é examinado e reexaminado; percebem-se melhor as questões colocadas; mas não se questiona o princípio, pois sabemos o que queremos e para onde tendemos, antes de reconhecer todos os pormoneres.
O início do Livro da História (Shujing) atribui ao imperador mítico Yao quatro grandes virtudes; saber pensar é uma delas:
“Yao revela uma vigilância assídua, uma inteligência penetrante, uma exímia distinção, um pensamento prudente; naturalmente e sem esforço.”
Mas se o indivíduo não sabe parar seu pensamento quando ele atinge seu objetivo, se ocupa o seu espírito com um esforço incessante de pensamento, se chega a considerar que não se preocupar é ser muito despreocupado, então o pensamento obscurece e desvia a razão; seu uso desregrado desgasta a vitalidade.
O Suwen repete o que dizem todos os livros de sabedoria:
“Ao exterior, eles (os Sábios) não sobrecarregavam seus corpos de afazeres. Ao interior, eles não se atormentavam com preocupações (si xiang 思想). A alegre serenidade era o que eles buscavam. Eles se ocupavam da plena possessão deles próprios.” (Suwen, ch. 1)
Nos textos médicos, o pensamento, antes de se pervetir, é igualmente apresentado como uma das grandes funções do espírito humano:

“Quando a vontade que se mantém se modifica, falamos em pensamento.” (Lingshu 8)

Longe de ser um paradoxo, descreve-se o processo que forma o pensamento:
“O conjunto formado pelo propósito e a vontade (a disposição interior, yi zhi 意志), estando-se fixado, vira e revira os dados, calculando, supondo, medindo; é então o pensamento.”(Zhang Jiebin)

Buscam-se todas as possibilidades de mutações e de alterações, porém sem vacilar, sem que a ancoragem, a orientação, a direção e o propósito, uma vez escolhidos, sejam questionados. Avalia-se e calcula-se sobre bases seguras e estáveis, à procura da eficácia. As facetas de um projeto inicial, de uma inspiração ou de uma idéia, são inspecionadas, mas não se deve brincar com um projeto, com um pensamento. Não conseguir deter-se numa idéia é patológico, na mesma medida em que é patológico não conseguir jamais mudar nada, quando uma nova era se anuncia ou quando as circunstâncias mudaram.

O PENSAMENTO, MOVIMENTO DO BAÇO-TERRA

Movimento Normal

O pensamento é apresentado aqui como a faculdade de conceber e combinar os planos com sabedoria e analisar as circunstâncias com profundidade. Ele é fundamentado sobre a memória das percepções e dos conhecimentos, das experiências e das cogitações. Ele é o processo pelo qual todos estes elementos se ligam e se combinam.
Estas atividades sobressaem do elemento Terra: a Terra recebe as sementes, amadurece-as e dá a cada uma o que lhe é apropriado. A Terra permite a mistura e a comunicação do que vem para seu seio; assim a água pode nutrir a vegetação e se transformar em seiva... O pensamento, baseando-se em toda a memória, permite as permutações, as compenetrações e colocar em relação, o que conduz à tomada de forma.
O pensamento é então associado ao Baço, que encarna a Terra no ser humano:

“A Terra [....]  Nos zang, é o Baço [....]  Nas vontades, é o pensamento   (si ).” (Suwen  5)

Des regramento

“O pensamento obsessivo (si ) prejudica o Baço, a cólera o arrebata no pensamento obsessivo.” (Suwen 5)

Quando os movimentos de sopros – análogos aos do Baço-terra – que elaboram o pensamento não são corretamente regulados, então o pensamento se transforma em preocupação, inquietação, tormento, obsessão. Este pensamento obsessivo poderá tomar diversas cores e ser inquieto ou ansiosamente agitado, desanimado ou alarmado; poderá gerar obstáculos e paralisar o pensamento ou o transformar em máquina louca e repetitiva.
A repetição que pode ir até a compulsão, marca bem a deterioração do Baço. No lugar de circular e de evoluir, de ser transportado e transformado, o pensamento estagna no lugar, atola na umidade, como viajantes mal equipados na floresta. No lugar de avançaranda-se em círculosOs sopros que já não conseguem circular, se bloqueiam e fazem nós:

“Quando há pensamento obsessivo, o Coração tem onde morar (constantemente e obsessivamente), os espíritos têm onde se referir (sem parar e sem evolução); os sopros corretos (zheng qi 正氣 ) permanecem no lugar e não circulam. É assim que os sopros são amarrados (jie  ).” (Suwen  39)

Fica-se preso na mesma imagem, na mesma idéia; fica-se preso na mesma coisa, incapaz de se liberar de um pensamento que ocupa todo o mental e mobiliza todas as forças.
O Coração está implicado, pois ele é a sede de todas as emoções e o lugar do pensamento.
Como o pensamento é uma “emoção”,é pouco habitual no Ocidente, tratar o pensamento como uma emoção. Sem querer retomar aqui a definição das emoções ou a análise da noção em Chinês, dirá-se simplesmente que o pensamento é um movimento específico de sopros no interior do mental, naquilo que constitui a trama e a substância da vida interior, naquilo que marca as tendências que vão determinar as reações e as ações da vida. Neste sentido, é uma emoção. Sua normalidade é o equilíbrio com os outros movimentos de sopros. Sua patologia desequilibra o todo por excesso.
Quando as atividades do pensamento, visto como as atividades dos sopros do Baço-Terra ao interior do metal, do Coração, são excessivas, elas levam ao bloqueio.
Um exemplo de desequilíbrio pode ser a má relação entre a Terra e a Madeira, o Baço e o Fígado, o pensamento que cria ligações e a potência da imaginação e da cognição.

A REFLEXÃO OU PROJETO, MOVIMENTO DO FÍGADO-MADEIRA
Uma noção se encontra muito regularmente associada àquela do pensamento que pode voltar à obsessão. No Lingshu cap. 8, é a etapa que segue o pensamento (si ) na elaboração do mental e da consciência:

“Que o pensamento se desdobre ao longe e com força falar-se-á de reflexão ( ).”
O pensamento (si ) é então concebido mais como voltado para o que já foi adquirido, conhecido, como um aspecto yin de ligação e consolidação. É necessário então adicionar-lhe seu aspecto yang complementar que trabalha mais sobre o imaginário, a invenção, a projeção no futuro, para que o pensamento seja completo e sirva para guiar a vida através das circunstâncias sempre mutáveis.
“Quando o pensamento, que se modificava e buscava, se inverte e se dirige para longe em direção ao futuro, temos a reflexão.” (Taisu)

A expressão si lü 思慮 significa: refletir intensamente (uma reflexão que normalmente chega a uma decisão); solicitude, estar preocupado; pensamentos obsessivos e preocupações. São os mesmos caracteres que, considerados positivamente, correspondem ao que entendemos por "pensamento e reflexão", e que, considerados negativamente, são a inquietação pungente, as preocupações, os aborrecimentos, a preocupação obsessiva.
Para transformar-se em projeto, o pensamento precisa, além de uma consideração ampla e profunda e de uma grande envergadura, do enraizamento ter permanecido sólido e o vínculo, firme no Coração.
Esta projeção reflete os sopros da Madeira, que dão o impulso necessário para ir adiante, até o fim. A reflexão reflete a capacidade do Fígado de gerir o mental, a inteligência, capacidade que faz dele a morada das almas Hun.
A reflexão pertence ao Fígado, como o pensamento pertence ao Baço. O simples pensamento reflete sobre elementos já vivenciados; aprendem-se as lições da experiência, medita-se, e, precisamente falando, cogita-se. Tira-se do húmus do já visto, já vivido, o fruto de experiências aprendidas e assimiladas. É o papel do Baço, que digere, assimila e transporta até as extremidades para nutrir.
A reflexão projeta em direção ao futuro, a fim de realizar o que ainda não ocorreu. Ela imagina, a partir do real. Ela é capaz de analisar os elementos do pensamento para ver o que pode ser concebido e realizado, permanecendo na realidade dos fatos e fiel à sua natureza própria.

“O Fígado tem o cargo de comandante dos exércitos (jiang jun 將軍), análise de conjuntura e concepção de planos (mou lü 謀慮) procedem.” (Suwen  8)

Como um general, o Fígado deve meditar e refletir longamente, para estabelecer um plano de batalha inteligente e sensato, livre das paixões, no qual a imaginação e a cogitação próprias aos Hun seguem fielmente a inspiração dos espíritos, a fim de garantir uma eficácia máxima.
O caracter da reflexão, lü , ilustra bem o que ela é. Ele é formado das listras do tigre  envolvendo o pensamento    significa: Projeto - concepção de planos - meditação - refletir - considerar atentamente - conjecturar - avaliar - premeditar - zelar - ter cautela - solicitude - preocupação - dúvida - incerteza.
O tigre salta poderosamente e longe, cai no lugar exato e detém sua presa no solo, imobilizando-a. O mesmo tigre permanence imóvel, até no olhar que vigia sem piscar, horas a fio. Ele espera. As listras revelam sua natureza. O repouso concentrado e o desencadeamento de um movimento calculado são os dois aspectos da mesma virtude; dois aspectos que se destacam no desenho regular de alternância da cor sobre uma pelagem fina e abundante.
As listras do tigre acrescentam ao pensamento uma consideração atenta, por vezes mesmo uma preocupação, mas que permite ao espírito arriscar-se, avaliar suas estimativas e planejar com conhecimento de causa.
Não há diferença entre a reflexão e o projeto, a concepção dos planos. O Fígado impulsiona longe e com impetuosidade, vai em frente, dá o impulso e o ímpeto: nada vai mais longe e em menos tempo do que o olhar. E nós sabemos que o olhar é o irromper do Fígado, através do orifício ocular.
Da mesma maneira que o Fígado-Madeira ajuda à expansão do Baço-Terra para que as circulações se realizem bem e que tudo seja distribuído sem obstrução, eis aqui o pensamento que se realiza através da reflexão, que o leva para longe ao mesmo tempo em que lhe aumenta a potência.
Deve-se em seguida tomar uma decisão e manter-se a ela firmemente, sem mais se preocupar em reconsiderar os incovenientes e as vantagens de cada plano possível. Isto seria análogo a uma obstrução do Fígado-Madeira pelo Baço-Terra, o que é também o ciclo de contra-dominação dos Cinco elementos.

“O Fígado é o general do Centro; sua decisão (jue ) vem da Vesícula Biliar; e a faringe é seu menssageiro. Um homem pode ter múltiplas análises de conjuntura e númerosas concepções de planos (mou lü 謀慮), mas, se há um vazio na Vesícula Biliar, ele não toma decisão (bu jue 不決 ).” (Suwen  47)
O vazio da Vesícula Biliar, dinamismo yang da Madeira, enfraquece a determinação e impede a passagem à ação. Não mais é a obsessão fixa sobre um único pensamento; é a multiplicação desordenada dos pensamentos. Não mais se teme morrer afogado; imaginam-se mil mortes; não mais se considera uma dificuldade, inventam-se dez mil. Mas sem concluir em nada. O delírio da perseguição e a paranóia não estão longe.

A OBSESSÃO DO DESEJO

Ter uma idéia fixa não é necessariamente um pensamento obsessivo, isto pode ser um desejo. O melhor exemplo ainda é a obsessão sexual:
“O pensamento carregado de preocupação (si xiang 思想) pratica indefinidamente, sem que se chegue a obter o que se aspira; o propósito (yi ) se distribui sem controle ao exterior; pratica-se intensamente o quarto de deitar (atividades sexuais); então o músculo ancestral (zong jin 宗筋 ) se afrouxa até o completo relaxamento.E se produz impotências no muscular (jin wei 筋痿), até causar escoamentos incontrolados da substância branca.” (Suwen  44)
O desejo não logra ser satisfeito, seja por não ser realizado, seja por que se quer sempre mais. A pessoa perde o controle de seus pensamentos e desejos, que são imantados para o exterior; o que impede de voltar a si. O desregramento da conduta se traduz por uma sexualidade desenfreada que desgasta as essências e os sopros e prejudica os Rins.
Entretanto o bloqueio resultante da obsessão agitada gera um calor reativo: o fogo do desejo. Este fogo contribui para a deterioração das essências e dos sopros. O sangue enfraquecido já não dá força e vigor aos movimentos musculares, o que se traduz em particular por uma falha de ereção (relaxamento do músculo ancestral) e em geral por paralisias flácidas devido à falta de irrigação e de força nos músculos (impotência do muscular). Empurradas para fora do corpo pelo fogo interno, ou se escoando devido à falta de sopros para as reterem, as essências se perdem, por exemplo, em espermatorréia (escoamentos incontrolados da substância branca).

PENSAMENTOS OBSESSIVOS E PREOCUPAÇÃO ESVAZIAM O CORAÇÃO

O Coração já não consegue manter as circulações vitais
O Coração pulsa o sangue no corpo. Tudo o que bloqueia ou enfraquece os sopros capazes de dar este impulso esgota o Coração e atrapalha suas comunicações.

“Sob o efeito da opressão e do pesar, dos pensamentos obsessivos e preocupações (you chou si lü 憂愁思慮 ), o Coração é prejudicado.” (Suwen 73)

“Em caso de preocupação e de opressão (si you 思憂), o conjunto das conexões do Coração (xin xi 心系 ) aperta-se (ji  ); estando assim apertado, o caminho dos sopros ficam estreitados (yue ); estando estreitados, já não há fluidez.” (Lingshu 28)

Os pensamentos (si ) obsessivos e o pesar (you ) se aliam para impedir as ciruculações do sangue e as comunicações do Coração com todo o corpo, em particular os órgãos. Ver adiante o estudo do pesar opressivo (you ).

Entre Baço e Coração
“ [...] diagnostica-se um acúmulo de sopros no centro. Tem-se frequentemente danos ligados à alimentação. O nome é Bloqueio do Coração (xin bi 心痹). Contrai-se este mal através de danos exteriores, pois os perversos exteriores beneficiam-se do vazio do Coração causado por pensamentos obsessivos e preocupações (si lü 思慮).” (Suwen 10)

Os recursos do Coração são mobilizados pelos pensamentos obsessivos, e a capacidade dos seus sopros enfraquece. Os sopros do Coração e do peito são solidários dos sopros yang que asseguram a defesa do organismo; quando estes últimos estão diminuídos, as agressões dos perversos externos são mais fáceis e mais virulentas, o que agrava a situação e enfraquece ainda mais os sopros que já não são capazes de assegurar as boas circulações. Estes se acumulam no peito e bloqueiam o Aquecedor Médio; são os bloqueios (bi ) do Coração. O Coração gasta seus recursos e suas forças re-considerando pensamentos obsessivos e pesarosos.
Em termos de ciclo de geração, dirá-se que o fogo do Coração, tornado impotente, não mais consegue vivificar o Baço, do qual o yang se encontra muito fraco para assegurar distribuições e transmissões. De onde vem o bloqueio sobre a alimentação, um freio particularmente aos movimentos de descida assegurados pelo Estômago. Come-se menos, digere-se mal... O enfraquecimento do Baço agrava a obstrução causada por pensamentos parasitas e repetitivos.

“Quando o Coração é acometido pela apreensão e pela ansiedade (chu ti 怵惕), pelos pensamentos obsessivos e pelas preocupações (si lü 思慮), os espíritos (shen ) ficam prejudicados. Prejudicados os espíritos, sob o efeito do medo e do temor (kong ju 恐懼), o indivíduo perde a posse de si mesmo; as formas arredondadas se descarnam e a massa da carne fica devastada.” (Lingshu  8)

Aqui já não se trata de um pensamento justo, que se desdobra com força ao longe em uma reflexão apropriada, capaz de organizar todos os elementos de uma situação ou de um ser, do meu ser. A apreensão e a ansiedade, instaladas nas profundezas do Coração, o tornam incapaz. Neste estado, os pensamentos e reflexões, que deveriam nos aclarar, estão desequilibrados, agravando a situação. Espada de dois gumes, pensamento e reflexão, mal conduzidos, se voltam contra aquele que os abriga, prejudicando os espíritos do Coração. O indivíduo se faz mal por seus próprios pensamentos, se tormenta por uma caricatura de sua reflexão. Ele aumenta a falta de posse de si mesmo, através do mau uso.
O Baço está enfraquecido, vazio daquilo que deveria vivificá-lo: o Coração que é o Fogo. É a força de expansão do Fogo que sustenta o movimento de distribuição dos nutrientes nas espessuras da carne, movimento da Terra, próprio ao Baço. Em caso de fraqueza deste Fogo, o Baço já não tem força nem para distribuir, nem mesmo para transformar, isto é, assimilar as essências nutritivas liberadas pela digestão.
O Baço é atacado pelo que ele deveria dominar: os Rins que são a Água. O Baço, pela sua capacidade de transformar e integrar a umidade do corpo tempera e equilibra os líquidos, a água do corpo, sob obediência dos Rins. Se o Baço, mal vivificado, perde sua aptidão de transformar, metabolizar, assimilar e transportar, distribuir; então os líquidos, a Água, se voltam contra ele, o inundam, o perturbam, o enfraquecem ainda mais o obstruindo com umidade. Em conseqüência, a força yang dos Rins, os sopros, que são encarregados de reter e transformar os líquidos no nível dos Rins, também diminuem.
A destruição da forma corporal, visível no emagrecimento, é consequente ao desperdício da vitalidade e à perda, pelo escoamento, das essências (do Baço e dos Rins) incapazes de regenerar e nutrir as carnes.

Um Coração livre para pensar
Ter no Coração, uma idéia, um pensamento, um objeto de solicitude é próprio ao homem. Mas fazer do pensamento uma preocupação e um pensamento obsessivo, uma obsessão que corrói e consome, é uma perversão; seria melhor um Coração vazio. O Santo não tem preocupação nem obsessão, ele se mantém na vacuidade e na pura serenidade; ele não deixa murmurar nem proliferar idéias e reflexões.
Não se é nunca mais profundamente pervertido que pelo que tem uma ligação natural consigo. O Coração, lugar do pensamento, será danificado e perturbado pelos pensamentos. Perturba-se e usa-se o Coração através de pensamentos obsessivos e preocupações, por um mau uso das suas capacidades de pensar e sentir; o que o entrega, chegado o momento, à agressão dos perversos exteriores.
Um Coração invulnerável é um Coração vazio. Pois o Coração não está aí simplesmente para permitir a germinação dos pensamentos, ele é o que permite ao homem se dilatar nas dimensões Céu/Terra; nenhum pensamento obsessivo deve retê-lo nem diminui-lo; nenhum pensamento deve ocupá-lo em detrimento de sua visão e de sua Inteligência espiritual.

PENSAMENTO E SANGUE
O Baço nutre o Coração e lhe permite assim elaborar tanto o sangue quanto o pensamento. Diz–se às vezes que o pensamento vem do Baço, mas se forma no Coração. É o mesmo para o sangue.
Pensamentos obsessivos, inquietações e preocupações trazem ou denotam um mau funcionamento dos sopros do Baço. O Baço se torna incapaz de nutrir corretamente o Coração.
Os sopros do Baço já não conseguem estabelecer as ligações, manter a memória, receber as informações e tratá-las. As idéias e imagens não se apresentam mais ao Coração em uma forma justa e frutífera.
Se o Baço não consegue fornecer líquidos suficientemente ricos, o sangue será muito pobre para permitir a presença dos espíritos, da consciência. As essências serão insuficientes para formar espíritos vitais (jing shen 精神) fortes. Ao lado dos sintomas consequentes ao empobrecimento do sangue, tem-se problemas mentais.
O vazio de sangue do Coração pode dar atordoamento, vertigens e problemas da visão, palpitações com uma sensação de mal estar e de calor. A falta de expressão dos espíritos se traduz então em afobamento, confusão, aturdimento.
A insuficiência dos espíritos do Coração traz agitação, apreensão, ansiedade, falta de discernimento; mas também problemas do sono, insônia, pesadelos.
O duplo dano de Coração e Baço se manifesta por esquecimentos, perdas de memória; perdem-se as coisas; falando, trocamos uma palavra por outra, torna-se incoerente... Fleuma pode se formar no peito, nas proteções do Coração, e obstruir os orifícios do Coração, levando assim à loucura.




* Extraído da apostila 'As Emoções', editada pela E.E.A.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Os Movimentos do Coração


Karina Paitach

http://www.alumiar.com/index.php/saude/51-psicologia/1370-os movimentos do coracao

A Terra vive do amor que o Céu tem por ela. Assim começa o preâmbulo do Livro Os Movimentos do Coração – Psicologia dos Chineses sobre o qual gostaria de falar um pouco.
Na cultura chinesa o Céu e a Terra se encontram.  Este “ponto de encontro” é o coração do homem. É o vaso sagrado que por natureza é vasto como o Céu e também a terra sagrada dentro de cada um. Por este motivo o coração é o centro das atenções no que diz respeito a nossa psicologia.
Sendo cada um deles, o Céu e a Terra, operadores da vida, vamos falar sobre a Virtude do Céu, o Sopro da Terra e os Espíritos que são os mensageiros da Virtude do Céu. Teremos também que revelar os três Tesouros se quisermos entender os seres humanos e por fim chegarmos aos Cinco Espíritos; que são a finalidade desta coletânea de textos.
Podemos dizer que o Céu é o que se manifesta como nossa própria natureza, que é a autenticidade do nosso agir. E o coração abriga o Céu e é sua morada, pois ele é capaz de receber o dom de reconhecer a justeza e a autenticidade das condutas.
O que recebemos do Céu nos marca ativa e constantemente; daí se originam todas as condutas do indivíduo. Já os Espíritos são da mesma qualidade da Virtude do Céu só que um pouco mais específicos. Assim são retratados os Espíritos: “A Virtude, assim como os Espíritos, é luminosidade irradiante. É a Luz que ilumina tudo que vem a este mundo...”. Os Espíritos advêm em nós, repletos de luz, manifestam a virtude e a trazem para nós”.
A Terra em nós é aquilo que recebe e carrega a virtude, dando-lhe formas. A Terra é uma grande provedora de formas definidas onde ficam abrigados os dons do Céu. Mas antes de falar em ‘forma’devemos falar sobre a forma sem forma, ou seja, aquela que aceita se tornar todas as formas: o Sopro e só ele é que pode ser verdadeiramente oposto, contrastado, complementar e compenetrado para e pela imensa Virtude do Céu.
E é a partir deste nível que nasce o YIN/YANG, pois agora existem dez mil seres. De um Sopro único e universal nasce a multiplicidade.  Quando falamos em sopros falamos no conhecido Qi e é por meio dos sopros ou Qi que tudo se faz, mantem e anima a Vida.
Agora que já entendemos sobre o Céu e a Terra, o que nasce deste cruzamento, ou melhor, o que nasce deste abraço são os seres viventes, portanto: “não há vida senão através dos sopros yin/yang, submetidos à ação própria da Terra, individualizados pelo Céu”.
Temos a tríade perfeita – CÉU – TERRA – VIDA, podemos falar um pouco sobre nós Humanos. No entanto o que nos difere, seres viventes, dos outros milhares de seres. O que temos de único? Aqui nasce o que é conhecido por Os três Tesouros.
Agora peço sua atenção: para que os viventes surjam deve haver uma revelação! Eis aqui o que é conhecido como Essências ou Jing o primeiro tesouro. O Jing é nossa energia constitucional e física o que nos torna viventes é o enraizamento de tudo o que existe – o elo biológico. Herdamos dos nossos pais e é o que nos liga ao mundo animal. Sendo assim os instintos de sobrevivência, a agressividade e a necessidade de nos ligarmos aos outros, estão ligados ao Jing.
Mas sabemos que nós não estamos ligados apenas ao reino animal, mas sim com todo Universo e esta ligação se dá através do Qi ou os sopros. Como mencionado anteriormente é ele que dá origem a todas as formas, portanto somos todos UM através do Qi, o segundo tesouro.
O terceiro e último tesouro é o que nos torna HUMANOS, o que nos diferencia e nos torna únicos no universo. Shen ou Espírito é o que não compartilhamos com os animais. Foi o Céu que nos concedeu. Os três tesouros refletem a tríade perfeita, sendo o Jing nosso elo biológico com os outros animais, portanto está ligado a Terra, o Qi que compartilhamos com os dez mil seres e oShen é a dádiva única concedida pelo Céu.
Temos mais revelações para fazer, a revelação dos Espíritos e esta se dá do encontro entre duas essências. O casal primordial, já falamos sobre eles, O CÉU/TERRA, os outros casais apenas reproduzem esta imagem, como por exemplo: YIN/YANG – MACHO/FÊMEA, etc.
Os Espíritos são o Céu em nós, nos conduzindo e trazendo sua mensagem. Shen é enraizado, fixado através das essências, está muito além delas mas opera e se manifesta através delas. Como tudo tem uma raiz, um lugar de onde emana uma radiancia luminosa assim também tem, como sua primeira morada, o Coração – Morada do SHEN. Aqui entendemos porque do brilho dos olhos, a luz espiritual que é conhecida como emanação luminosa simbolizando saúde e vivacidade.
É a partir do Coração, os Espíritos irradiam até os mais remotos recônditos do ser; eles estão em toda parte, nos Zang (órgãos), no mental, em todo o lugar onde a animação vital se manifesta. Para sua manutenção precisamos proporcionar um coração sereno e disponível. Disponível quer dizer um Coração vazio no seu mais alto grau de significado.
Embora o Espírito - Shen seja indivisível e inominável, mistério último, podemos particularizá-lo de acordo com suas moradas. Sabemos também que ele habita todos os lugares, mas vamos falar de cinco, que estão relacionados a cinco órgãos Yin ou Zang e que são a finalidade destes textos.
Primeiro devemos abordar é Espírito na sua manifestação mais Yang o chamado HUN que habita o Fígado e está em ressonância com o elemento Madeira. O aspecto mais Yin do Shen conhecido como PO que está relacionado com o órgão Pulmão e está em ressonância com o movimento Metal, mas este deixaremos para o nosso próximo encontro.
Shen se expressa através dos órgãos (Zang – Yin) e vísceras (Fu – Yang) sob cinco formas, também chamadas de “Alma dos Zang-Fu” que remonta a ideia de morada dos Espíritos no nosso corpo.
HUN - Almas Espirituais
Para nós ocidentais Hun é o que chamamos de “alma” ou “espírito” da pessoa. Podemos chamar de almas espirituais, espírito que raciocina - mas chamaremos de HUN.
Hun como um movimento Yang tende a subir, elevar-se e ele precisa que algo o entesoure - o seu enraizamento acontece no Fígado impedindo seu impulso em direção ao Céu.
Pensando em ressonância, lembrando que a sabedoria dos orientais se espelhou na natureza para desenvolver toda sua filosofia e medicina; quando desenvolveram o conceito de movimento Madeira estavam falando sobre a força do nascer das plantas, que se movem em direção ao Céu e isso acontece na Primavera estação que representa o desabrochar de tudo. O fígado yin com seu parceiro yang a Vesícula Biliar formam o par de órgãos (YIN/YANG) do movimento Madeira.
Este sistema Fígado/Vesícula Biliar, fisiologicamente falando (na visão da MTC) é responsável por armazenar e regularizar a saída de sangue de acordo com os diferentes estados fisiológicos. É ele quem “comanda o mar do sangue”. Nutre os tendões e músculos já que eles são alimentados pelo sangue. Todas as funções são geradoras dos nossos movimentos o que deixa claro sua ressonância com a Madeira.
Outra manifestação do Hun é através da emoção ressonante – Raiva no sentido de impulso para a realização. É uma força dinâmica que desencadeia os impulsos necessários para empreender uma ação.  Como controla a imaginação, desempenha um papel essencial em todo ato de criação, permitindo a elaboração de uma estratégia.
Hun descontrolado gera a ira, a fúria que nos torna cegos de raiva. Os planos futuros e a criatividade perdem sua fonte de estímulo e o nosso sono se torna agitado. O Coração será muito afetado neste desequilíbrio, pois não é ele um músculo? E também não é ele a primeira morada doSHEN?
Cada sistema no homem tem sua singularidade e atividades que lhes são próprias no metabolismo energético, mas todos são de igual importância na manutenção do equilíbrio. As atividades humanas sejam elas mentais, emocionais, fisiológicas, espirituais ou sociais não são nada além das expressões múltiplas de um mesmo princípio geral, que é a transformação e o fluxo da energia e a manutenção disso depende de uma moradia tranquila para os espíritos, o coração sereno.
PO - Alma Vegetativa e o Movimento Metal
Para continuar nosso estudo sobre a Alma dos Zang Fu e para falar sobre PO e o Movimento Metalnão posso deixar de mencionar HUN, pois eles formam um par cujo equilíbrio compõe a vida. Em cada par a força da união se expressa através de suas afinidades.
O mais alto entrelaçamento e também o mais profundo ancoramento de um Ser estão ligados aoHun e ao Po. Ligado às essências Po se apoia nos sopros (yin) e o Hun está ligado aos Espíritos (yang).
Quando o corpo está começando a se formar no ventre a alma que lhe dá sua forma é chamada dePo, e quando este corpo estiver pronto, sobrevém à alma espiritual Hun e assim estão HUN e PO, de forma muito íntima, ligados e sua união é a vida.
Os movimentos vitais, as sensações (sensitivo – vegetativo), as reações e também os impulsos instintivos são também governados pelo Po. Para que isso ocorra e como bem sabemos é necessário um enraizamento que o sustente e o entesoure. Este receptáculo é o Pulmão - o mestre dos ritmos da vida.
Para que tenhamos nossos Hun e Po vigorosos temos que beneficiá-los com essências de qualidade. Quero dizer com isso que precisamos comer e beber como um “gourmet”, respirar o ar puro corretamente. Não só isso, como também temos que nos nutrir de conversas elevadas e de música requintada, pois isso fortalece o assentamento de nosso ser instintivo, corporal e espiritual.
Assim ao longo da vida as almas Hun e as almas Po se abastecem de vitalidade e a qualidade do que é absorvido é determinante para uma animação correta. Animação aqui se entenda como algo que ultrapassa a morte.
Po também tem a função de proteção que está ligada a uma energia chamada Wei Qi, ou Energia Defensiva. O pulmão é um grande e importante colaborador para a formação desta energia. Ela está alojada logo abaixo da nossa pele e forma uma barreira que impede fatores patológicos externos de invadir nosso corpo.
O Movimento Metal abrange dois órgãos - o Pulmão (yin - Zang) e o Intestino Grosso (yang – Fu). A regulação da rede que dá a vida, se origina do Pulmão e ele é o receptor do Qi dos Céus. Quando nossos pulmões estão saudáveis o Po fica bem enraizado então podemos nos sentir inspirados e cheios de vida - animados, estamos conectados com o que há de mais elevado em nós.
Uma outra emoção ressonante com o Movimento Metal é a tristeza, ficamos desanimados, fracos e pode surgir uma opressão no peito, não nos sentimos mais adequados no mundo.
A respiração errada afeta o ser no nível do espírito porque é através da respiração que nos conectamos com o Qi do Céu e, portanto se não o fazemos de forma adequada nos sentimos separados e alienados do mundo.
O descontrole do Po pode levar a depressão e até a morte, que nos desliga da terra através de um último suspiro.  E por falar em morte – partida, é no Outono que as árvores murcham e as folhas caem na terra – é um período de queda e está em ressonância com o Movimento Metal. Mas não esqueçam que toda morte é uma transformação, um ritual de passagem e a vida há de voltar em uma nova inspiração.
E com um sentimento de renovação buscamos um sentido entre o ser ou o fazer, percebemos: não há mais nada a fazer senão ser!
A vida de cada um só é autêntica quando sustentada pelo movimento natural de nos encarregarmos de nós mesmos. E o grande encarregado de todos os seres na Medicina Chinesa é o Coração que está em ressonância com o Movimento Fogo.
Saiba que cada um de nós também é um “coração” - a primeira morada do Shen.  Do coração depende a felicidade ou a infelicidade, a doença ou a saúde, pois a vida individual é centrada por ele.
O Coração, a morada do Shen e o Movimento Fogo
O coração do homem é o coração do coração do Universo.
O coração é o nosso centro vital e ocupa o lugar de soberano. Vaso sagrado, terra sagrada de cada um, ele acolhe os Espíritos oriundos do Céu; contém e controla a interação Céu / Terra, que nos torna homens e nos mantém vivos. Por natureza, o coração do homem é vasto como o Céu. No verão, o sol é o rei e em nós, o coração reina.
A vida é um eterno surgir, que nos leva a exteriorização pelo constante contato com os seres que nos cercam. Esse contato acontece através dos cinco sentidos e o encarregado deste contato é o coração. Sempre tentado a se preencher, deve procurar esvaziar-se. Às vezes o coração do homem se envolve com as informações dos sentidos e com os movimentos do corpo, mas deve saber se fechar, está é a maestria da vida que reside na arte do coração.
A Medicina Tradicional Chinesa nunca separou os processos físicos dos fatores emocionais, expressões populares, tais como: "estar com o coração nas mãos", "ficar cego de raiva", entre outras mostram esta relação de interdependência. Para esta antiga medicina cada órgão/víscera humanos são também dotados de emoções. O coração está ligado à alegria.
O Movimento Fogo está em ressonância com o coração. O Fogo é expansivo, se inflama para o alto (ascendente), é penetrante, aquece e anima. Esse é o significado do brilho dos olhos (espelho da alma), da expressão “estou animado”, “calor do coração”, entre outras.
Quando é usado o termo “Espírito” estamos relacionando com o princípio de animação, ou princípio vital do homem. É uma qualidade, por isso não pode ser medido. Pode-se apenas percebê-lo, como uma emanação que provém do todo. Mas também implica na existência material (Yin/Yang – Matéria/Energia) dentro da visão da filosofia chinesa, que é diferente da maneira ocidental de entender esta palavra.
Shen é também o supervisor de todos os outros espíritos (Hun, Po, Zhi e Yi), para cada um destes “espíritos” é importante que seu governador esteja saudável.  Assim como a luz irradia do sol, os espíritos irradiam do coração. Nós já falamos de HunPo e Shen, no próximo texto falaremos sobreZhi e o Movimento Água. Para concluir a série de cinco textos abordaremos Yi e o movimento Terra.
Shen coordena o psiquismo e configura (como um organizador) o ser humano. É responsável pela coerência da personalidade e se expressa nos aspectos mais elevados da inteligência, particularmente a capacidade de manejar as situações e de adaptar-se o melhor possível a tudo que nos cerca.
Uma condição energética de deficiência desse sistema mostra a incapacidade de ter uma percepção justa das situações, originando uma tendência a reclamar sem nunca cessar. Quando ocoração está perturbado por uma condição de excesso (abarrotado de coisas), há euforia, incoerência, confusão. No entanto quando o Shen está na sua morada, a mente está clara, o coração é sereno, o discurso é lógico. De acordo com o Nei Jing “quando o Espírito está em paz, o sofrimento não é mais que um minuto”. Relata também que para tornar o tratamento eficaz é necessário começar por curar o Espírito. Mencionando outro texto antigo: “O corpo é a casa da vida [...] o Shen é o governador da vida.” – Huai Nan Zi (Contemplações dos mestres de Huai Nan).
É de grande importância não perder o nosso centro de comando, pois perdê-lo é nos perder por inteiro. Somente este centro, imbuído de luz que os Espíritos vertem, pode conduzir nossa vida rumo ao desenvolvimento natural e harmonioso.
Propósito e Vontade, Yi e Zhi os Movimentos Terra e Água
Os sinais de saúde ou doença estão relacionados, na Medicina Chinesa com estados perceptíveis do Qi. Um indivíduo que possui o conhecimento desta terapêutica pode manter seu corpo, mente e alma em um estado de grande equilíbrio. E para tanto precisamos ter como aliados o propósito e a vontade.
Não é possível falar sobre o Propósito e Vontade sem falar no Coração, pois estes são muito próximos, íntimos e não podemos separá-los porque estão profundamente ligados à manutenção da vida.
O propósito ou Yi se enraíza no Baço e Zhi, a vontade, nos Rins. A Vontade dá enraizamento ao Propósito e estão ligados ao Coração, pois quando o Coração se aplica, acontece uma apreensão sob seu efeito que podemos chamar de Intensão ou Propósito. E quando o Propósito é permanente existe a Vontade.
É através do Propósito que o Coração escolhe, no húmus da memória e das vivências. OPensamento que está diretamente ligado à memória, gera a capacidade de integrar e de reproduzir informações e está relacionado ao Baço. Quando adicionamos a isso tudo o poder da Vontade (Rins), podemos então firmar uma ideia e seguir em frente a fim de realizá-la.
Quando estamos ancorados na Vontade dos Rins, corretamente estabilizados pelo Propósito do Baço e bem Iluminados pelos Espíritos do Coração podemos nos reestabelecer dos mais terríveis golpes. Ficaremos abalados e emocionados, mas sempre existe a possibilidade de se reerguer, por isso a manutenção da vida depende deles.
Em ressonância com o movimento Terra encontramos todo mundo material, o chão, nossa base e sustento. Nós seres humanos estamos entre o Céu e a Terra. Com a cabeça no Céu captamos o Qi“Celestial” (ar) e com os pés bem firmes na Terra temos estabilidade e, centramento. Também não podemos nos esquecer dos alimentos.
Em caso de deficiência energética do movimento Terra, a memória fica débil e a conceituação confusa, no entanto quando perturbada por excesso, a memória se mostra obsessiva e não para de pensar, fica impossível desapegar-se das experiências do passado.
Em ressonância com o movimento Água estão todos os líquidos do corpo, do qual somos constituídos por mais de 70%. É através deste elemento que nos renovamos constantemente, com ela tudo flui. Assim como os líquidos nas articulações promovem os movimentos do corpo, os líquidos da mente e do espírito permitem que nós possamos fluir sem impedimentos pela vida.
A deficiência energética deste movimento produz medo, um caráter indeciso e mutável, desânimo e submissão à adversidade. Quando o Zhi se expressa demasiadamente, em excesso podemos observar temor, medo ou tirania.
Para a Medicina Chinesa os órgãos internos são entendidos como unidade corpo-alma-espírito por isso cada órgão é portador de funções psíquicas e mentais e faz parte, também do conjunto da personalidade. As ações recíprocas com outros órgãos são de importância vital para a plenitude do sentir, pensar, querer e atuar, ou seja, no enraizamento da Vida.
Até agora falamos dos 5 movimentos - Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água, e seus Espíritos, que são respectivamente: Hun, Shen, Yi, Po e Zhi. A partir de tudo que discutimos pudemos perceber a integração dos aspectos físicos e psíquicos e percebemos também que a função orgânica e os elementos que constituem o plano psíquico formam um conjunto inseparável que podemos chamar de Tao vital humano.
A medicina chinesa entende que o mais importante para se tratar uma doença é o enraizamento nos 5 Espíritos do homem, ou seja, somente os espíritos – centro da vida, são capazes de corrigir as perturbações desde o interno e por isso pode levar a uma verdadeira cura.  Isso foi revelado noSuwen, cap. 13: “Ter a posse dos Espíritos é resplandecência. Perder os Espíritos é aniquilação”.
A manutenção da vida!
A meta para conseguir a manutenção da vida é estar uno com o Céu e para isso o corpo tem que estar completo e a Essência do ser sempre renovada. Para tanto é muito importante observar a corrente natural, e manter-se em conformidade com ela.
A ordem é: harmonizar! O equilíbrio só é alcançado com uma conduta constante e calma. A estabilidade e a firmeza da linha da vida e o enraizamento constante dos espíritos nada mais são que constante adaptação.
Sempre que se fala em manutenção da saúde e da vida, a maioria das pessoas logo pensa nas coisas das quais terá que se abster, mas na verdade o mais importante é manter a linha de vida na temperança e na sinceridade, no acordo profundo com sua natureza humana e também no bom senso.
A vida dentro de nós é um mecanismo sutil. É preciso conhecer o organismo, sua natureza, seu psiquismo para que o movimento de adaptação seja espontâneo, já que todo movimento forçado leva ao desgaste. Pensando em movimento e transformação vamos abordar cada um deles e falar um pouco das atitudes necessárias para a sua manutenção.
O movimento Madeira (Hun), é o setor onde a energia vital sobe, abre caminhos, exatamente como a árvore brota na primavera. Podemos dizer que também somos árvores (membros os galhos, pés as raízes e o corpo o tronco da árvore). Fazendo essa analogia e lembrando que madeira está em ressonância com o fígado e a vesícula biliar, percebemos que: o movimento, o andar, fazer exercícios enche de energia o ser, que é própria deste movimento. Para ajudar na manutenção da madeira o sabor ácido, das frutas, consumido de forma moderada ajuda a harmonizar.
O movimento Fogo (Shen) a energia vital está exuberante, é o verão. A pequena árvore da primavera já está desabrochando e da mesma forma nós nos mostramos ao mundo com muita vitalidade e alegria.  Desfrutando tudo sem presa, e certos de que temos nosso sol interno – Coração! Neste movimento a alegria de viver é de fundamental importância para a manutenção de todos os outros movimentos.  A alegria é essencial a vida! O sabor amargo está ligado à manutenção deste elemento, portanto o consumo consciente deste sabor ajuda o coração a ficar em harmonia.
O movimento Terra (Yi), o chão que nos sustenta, o verão já vai longe e neste momento ele está estável, calmo, pois logo vai se iniciar um novo movimento. Por isso a referencia aqui é de centramento, estabilidade: a manutenção da vida em si. O ato de comer está ligado a este movimento, portanto boca, estômago, baço-pâncreas são seus “aliados”. Quando este elemento está em harmonia nos traz a sensação de paz consigo mesmo, nos sentimos em casa, centrados. O sabor que nos conduz a estas sensações é o doce, claro que nem preciso falar, novamente, no bom senso para o consumo deste sabor.
O próximo movimento seguindo a corrente natural e mantendo a sintonia com a natureza é o movimento Metal (Po). Após o momento em que a energia ficou estável dá-se inicio ao declínio natural, chegou o Outono. Os últimos frutos são colhidos, as folhas vão caindo e o movimento, portanto, é de colheita e recolhimento, da mesma forma que e o pulmão colhe o ar puro e o intestino grosso, ressonante deste movimento nos faz assimilar o importante e descartar o que não precisamos mais. O sabor picante vai ajudar a colocar estes elementos em harmonia.
Agora é momento de quietude, chegou o inverno e a energia assume sua forma potencial. O movimento Água (Zhi) fala sobre fluidez e adaptação. Todos os líquidos do corpo estão ligados a este elemento e o órgão em ressonância é o rim, claro que junto com a bexiga. Aqui fica claro através da analogia que é necessário para todo ser adaptar-se e fluir com a vida, sem se preocupar com as barreiras da vida já que tudo está em constante mutação. O sabor salgado pode trazer benefícios a este elemento lembrando que se abusarmos deste sabor ele será seu principal vilão.
Os textos deram um panorama geral deste mecanismo sutil que é a vida. Percebemos que os processos da energia são cíclicos como as estações, compreender e estar em conformidade com estes ciclos é o primeiro passo para sua manutenção. Para quem procura a longevidade não se esqueça do conselho dos mestres: coma a metade, ande o dobro e ria o triplo!!!
Referencia Bibliográfica:
Elisabeth Rochat de La Vallee e Claude Larre. Os Movimentos do Coração: Psicologia dos Chineses. Belo Horizonte: s.e., 2004. Tradução de Nicole Mir.
Wang. Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo. Editora Icone, 2001.
HIRSCH, S. Manual do Herói ou a Filosofia Chinesa na Cozinha. São Paulo: Corre Cotia, 1990.
YAMAMURA, Y. Huangdi Neijing – Ling Shu. São Paulo: Center Ao, 2007.
Psicóloga especialista em Acupuntura
CRP 06/68011
http://www.alumiar.com/index.php/saude/51-psicologia/1370-osmovimentosdocoracao





O PENSAMENTO, FUNCIONAMENTO NORMAL DO ESPÍRITO HUMANO

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