domingo, 25 de fevereiro de 2018

Capítulo II do SUWEN - vídeos legendados em português

Esse curso é o primeiro que a EEA disponibiliza em VOD.
Através do capítulo II do Suwen, ele apresenta a visão tradicional chinesa das estações e dos “qi” ou energias ,sopros que eles representam, assim que suas manifestações fisiológicas ou patológicas na medicina tradicional chinesa.
É um texto fundamental para a prevenção de doenças e para o exercício da “arte de preservar a vida”.

“Temperar os Espíritos “ - O capítulo II do Huangdi Neijing Suwen, ou “Grande Tratado sobre a regulação dos Espíritos segundo os quatro Sopros “,traduzido e analisado por Elisabeth Rochat de la Vallée, legendados em português:

https:
//vimeo.com/ondemand/suwen2portugues




sábado, 13 de janeiro de 2018

OS HUN E OS PO NA CULTURA CHINESA

Elisabeth Rochat de la Vallée

Tradução: Jean-Pierre Bernadou,dezembro de 2017.


1. A ALMA ÚNICA E AS ALMAS DO CÉU E DA TERRA

De acordo com a tradição chinesa, o Hun e o Po são os nomes das almas do ser humano,. Assim, o ser humano teria duas ''almas'', e mesmo, para ser mais exato, dois grupos de almas, pois nem o Hum nem o Po fazem referência a uma entidade única, mas sim a um conjunto. De fato, fala-se dos Três Hun e dos Sete Po. Voltaremos mais para frente a falar sobre o valor simbólico desses números, mas fica evidente que, no ser humano, as almas , além  de ser diferentes, são também múltiplas.

Isso se enquadra  nos hábitos ocidentais de pensar. De fato, quando falamos de ''alma'' temos a ideia du um princípio único, sem dúvida difícil de definir, mas que  nos faz sentirmos no entanto ,no centro do que nos somos: a minha alma, sou eu, o que eu sou, a minha vida e a minha sobrevivência.

No Ocidente, a noção de alma é em primeiro lugar religiosa. A alma é o princípio espiritual do ser humano, entendido como separável do corpo físico, imortal e julgado por Deus. O corpo físico morre e a alma sobrevive; eu sobrevivo ao desaparecimento do corpo que só era a embarcação ou a prisão de minha alma durante o período da vida na Terra.

A filosofia apropria-se do conceito fazendo dele um dos dois princípios  que constituem  o ser humano: o princípio da sensibilidade e do pensamento, como oposto ao corpo físico ,porém exprimindo-se unicamente por ele.

''Nós somos constituidos de duas naturezas opostas, a alma e o corpo.''

A alma pode então ser entendida como sendo o princípio da vida moral, ou seja a consciência moral. E, mais recentemente, no século 20, como sendo o conjunto das funções    psíquicas e dos estados de consciência. Muitas expressões da língua fazem-nos lembrar as  diferentes facetas do emprego dessa palavra: ''a força de alma'', ''a minha alma fica triste esta noite'', ''entregar a alma'', ''em alma e consciência''; fala-se de uma alma linda, uma alma preta, uma alma condenada, assim como da alma de um país ou de  uma empresa, etc. Portanto, a alma é intimamente ligada a sensibilidade, aos sentimentos (estados de alma), ao conhecimento, a percepção justa e ao juízo correto (a lei moral), ao conjunto da pessoa e das suas forças vivas (de toda minha alma), a identidade de uma pessoa (uma alma linda, ter a alma de um  rei ou a de um mordomo) tal como ela é, tal como  ela  forja si mesma, tal como ela vai apresentar-se para a eternidade.

Se a alma determina a minha vida presente, que se acaba quando eu entrego a alma, ela é também o que sobrevive depois a morte; as almas dos falecidos[1]  são vividas por muitas pessoas como uma realidade, sem falar obviamente das almas vagantes e dos fantasmas dos contos e lendas da nossa infância.

Nenhum caráter – nem expressão – chinês restitui exatamente esse conceito de alma.

No entanto, se os termos chineses de Hun e de Po são traduzidos frequentemente por ''almas''[2], é porque encontraram-se bastante concordâncias com o sentido dessa palavra; e tem efectivamente convergências ; mas estas últimas não apagam as diferenças que permanecem na abordagem dessa noção e que estam relacionadas com a visão e a interpretação do mundo próprias de cada uma das duas civilizações.

Do lado das convergências, acha-se a noção de animação, raiz da palavra alma (anima em latim). A alma é o que anima a minha vida. Os Hun e os Po são o que, juntos, permite também a animação da minha vida. A alma é relacionada ao que permite viver e sobreviver. Os Hun e os Po são também o que subsiste depois da morte como espíritos luminosos do Céu, espíritos dos antepassados, ou como almas vagantes ou até demônios temíveis.

Assim as almas Hun e Po são muito importantes durante a vida mais ainda depois da morte. A morte é precisamente a separação das almas Hun e das almas Po, ambas voltando ao  lugar que lhe pertence .

Do lado das diferenças, encontra-se primeiro essa pluralidade de almas e, essencialmente, a dualidade delas. Do modo chines de ver, a vida é transformada no cruzamento do Céu e da Terra ; o ser humano é constituido de uma parte celestial e de uma parte terrestre.

Claro que a parte celestial pode conceber-se como o seu espírito vital, as suas faculdades mentais, a sua consciência, e a parte terrestre como o corpo físico. O que se encontra por exemplo no Huainannzi, cap'itulo 7 :

''Contudo, os Espíritos vitais (jing shen 精神) são uma dádiva do Céu enquanto a forma corpórea (xing ti 形體) é fornecida pela Terra.''

Porém, é possivel falar em termos de alma não só do espírito vital mas também da forma corpórea. Há o que permite a animação espiritual – são as almas Hun, celestiais – e o que permite a animação corporal – são  as almas Po, terrestres. O que diz muito bem outra passagem do mesmo Huainanzi : 

''Os sopros celestiais (tian qi 天氣) formam a alma espiritual (hun ); os sopros terrestres (di qi 地氣), formam a alma corpórea (po ). Que voltem a sua morada primordial e cada uma conservará o seu lar.»
 (Huainanzi, capítulo 9).

O que é uma alma corporal ? Um oximoro, de acordo com a nossa  concepção. Mas uma evidência e uma necessidade, de acordo com a  concepção  chinesa antiga.

A segunda frase indica que a morte é o momento da separação das almas, quando cada uma delas tem que achar o seu caminho em direção do além.

Se as duas espécies de almas são dupla animação celestial e terrestre do ser humano, dá para ver que constituem exatamente o reflexo  do que é um ser : um cruzamento , um nó de sopros entre Céu e Terra : ''sopros do Céu, sopros da Terra.''

O par Hun e Po reflete dois outros pares : Céu Terra e Yin Yang.

O Shuowen jiezi[3] define os Hun como sopros yang (yang qi 陽氣) e os Po comme espíritos yin (yin shen 陰神 ). O mesmo livro apresenta os shen () como os espíritos do Céu e fala de sopros yin (yin qi 陰氣) a respeito dos gui (), espíritos da Terra ou fantasmas.

Numa primeira fase, podemos diferenciar os Hun e os Po da seguinte forma :

HUN
almas espirituais, inteligentes, razoaveis
PO
almas corpóreas, animais, sensitivas, vegetativas
Céu
Terra
Yang
Yin

Vai se tratar de manter o equilibrio e a harmonia dos sopros yin yang, os intercâmbios dos dois parceiros, com a precedência dos Hun, ligados à inteligência espiritual, pois, no Céu Terra, sempre tem uma ordem hierárquica, uma precedência do Céu em relação a Terra. Se a relação se inverter, isso vai produzir uma desorganização, porque a vida do ser humano coloca-se em contracorrente da ordem natural.

Resultam duas consequências :

- Durante a vida, é preciso cuidar das nossas almas, as quais constituem o  fundamento da vitalidade; nos animam, e impedir a sua separação, a sua saída.Duas consequências decorrem: 

- Com a morte, as almas se separam : cada uma segue seu rumo , os Hun em direção ao Céu e os Po em direção à Terra.

Tem um jeito de poder juntar o movimento da vida mantendo-os em uma harmonia perfeita.

« A vitalidade (jing ) e a clareza (shuang ) do Coração (xin ) são o que se chama Hun e Po. Se os Hun e os Po vão embora de nós, como poderemos sobreviver ?''
 (Chunqiu zuozhuan, 25o ano do duque Zhao).

''A vida do homem, entre o Céu e é Terra, parece-se com o pulo de um potro branco  em  cima de uma ravina ; um pulo e, num piscar de olhos, acabou.
Derramamento súbito e nada que apareça (chu ). Deslizamento silencioso, et nada que, por fim, desapareça (ru ). Uma transformação (hua ) leva à vida (sheng ), mas uma transformação também leva à morte; os seres vivos choram disso ; os humanos ficam desanimados. Mas isso é livrar-se (jie ) da bainha da qual o Céu nos dotou, abandonar o invólucro dado pelo Céu.
Um enrosco, uma ondulação, e os Hun e os Po vão embora, a vida (a pessoa e o corpo dela, shen ) na continuação deles, para cumprir o Grande regresso (da gui  ). 
(Zhuang zi, capítulo 22).


2. ANÁLYSE DOS CARATERES HUN E PO

A  PARTE COMUM DOS CARATERES HUN ET PO

Os  carateres usados para escrever Hun e Po contem uma parte comum, gui , representando uma cabeça grande em cima de um corpo, com um gancho ou um pequeno remoinho de pó que evoca algo passando no caminho, como um fantasma (a cabeça grande e uma forma flutuando fazem pensar nos fantasmas dos castelos assombrados).

Gui  designa os espíritos da Terra, as forças animadoras na Terra. A expressão antiga gui shen  , que une os espíritos da Terra (gui) e os do Céu (shen), designa toda a animação do Céu Terra, tudo o que permite o sugimento dos seres vivos entre Céu e Terra, as forças presentes atrás dos fenômenos e dos seres.
Muito provavelmente, os gui e os shen remetiam antigamente aos espíritos dos antepassados (os shen subiam ao Céu, os que ficavam na Terra sendo espíritos gui, os quais podiam eventualmente tonar-se assombrações). Voltaremos a falar sobre o culto  dos antepassados e sobre as assombrações.

Se parece coisa normal encontrar o caráter dos espíritos da Terra nas almas emanando dos sopros da Terra e destinadas a regressar lá, o fato é que o caráter usado para os Hun, emanações dos sopros do Céu e destinados a alcançar as  elevações  sútis, usa também os espíritos da Terra.

Varias hipóteses aparecem :

a) Não se pode julgar da origem de um caráter em relação aos sentidos que ele tomará a seguir ; a evolução de uma noção não é conhecida antecipadamente.  Talvez na origem o caráter hun não era significativamente relacionado com o Céu, e é só mais tarde que se especializou como alma celestial.

b) Os Hun e os Po são a animação de uma vida que ganha forma sobre a Terra. Até mesmo se os Hun são, dentro de mim, o que abrange o Céu, apesar de todo eles se expressarem  no ser que vive sobre a Terra. Mas isso é um tanto uma explicação a posteriori.

c) Dado que o culto dos antepassados consistia em fazer voltar os espíritos dos mesmos no lugar do sacrificio, tanto da sua estadia no Céu como das profundidades da Terra, o termo nomeando os espíritos da Terra, gui , foi associado com um outro termo homófono, gui , o qual significa voltar, regresso e assombrações (fantasmas). Mas tem uma probabilidade muito pequena para que esse trocadilho, mesmo que antigo, explique a origem da escrita do caráter hun.

d) O caráter gui  remonta a inscrições oraculares, onde ele significa as almas ou os espíritos de um falecido, talvez de modo geral. Só tardiamente é quando ele foi associado ao caráter shen, na expressão gui shen , os espíritos do Céu e da Terra. Sería bem possível que fosse tomado nesse sentido para designar as diferentes espécies de espíritos ou de almas dos mortos, especialmente quando eles reaparecem para assombrar os vivos. Os carateres hun e po se seriam então desenvolvidos e precisados mais tardivamente.


A PARTE ESPECÍFICA DOS CARATERES HUN ET PO

É a parte esquerda de ambos carateres.

No caso de hun , a parte específica é o caráter yun , cujo sentido é as nuvens ; ele mostra como um vapor eleva-se do chão e amontoa-se no alto para formar as nuvens. Esse caráter serve de fonética, ou seja ele dá uma indicação sobre a pronúncia, mas também ele evoca um movimento ascendente em direção ao Céu, o qual corresponde ao Yang, a um desenvolvimento, a uma subida.

As nuvens viajam na vastidão do Céu. Se tornarão facilmente uma imagem para as almas Hun, caminhando livremente nos espaços infinitos.

Diversos textos, elaborados depois do início da era cristã, usam associações gráficas e sonoras para explicar a natureza das almas Hun. Esses textos retoman a imagem das nuvens para mostrar que essas almas viajam e estão atarefadas sem cessar e sem limites. Eles bricam com a homofonia entre o caráter para nuvens, yun , e o caráter yun [4], que significa mover, transportar, deslocar-se. Sendo de natureza yang, os Hun são caracterizados pelo movimento e a atividade, do mesmo jeito que são os sopros[5].

A liberdade de movimento, a leveza e a movimentação da vida caracterizam os Hun ; eles se escapam facilmente do corpo, para um tempo ou para sempre.

No caso de po , a parte específica é o caráter , o qual se pronuncia bai ou bo, significando branco. Também aí, essa parte específica serve de indicação para a pronúncia (entre bo e po tem só a diferença de uma aspiração) e ao mesmo tempo ela é portadora de sentidos que vão bem a noção de Po.

Sem dúvidas uma das primeiras associações feitas com os Po foi com os ossos, cuja cor é branca e que evoca os mortos. Mas, durante a vida, esses ossos também são o receptáculo da medula, quintessência de substância vital. Os Po são intimamente associados a vitalidade corpórea e as essências, como o veremos mas adiante.

O carácter bai , branco, tem ele mesmo varias interpretações possiveis :

a) A brancura radiosa da luz, a irradiação da luz que se difunde em todas as direções, a pureza e o brilho.
b) O movimento do declínio, do retorno na Terra. O branco então não é mais encandeamento ou iluminação ; ele é a cor da chegada do yin nas estacões, quando as geadas do outono precedem a neve do inverno, ou nas idades da vida, quando o cabelo branquea, ou ainda é a cor do que fica quando todo o que foi confiado a terra desapareceu, ou seja os ossos branqueados. Ainda é o brilho do metal que ceifa as espigas ou faz cair as cabeças no outono.

O branco representa então um movimento de retorno para a Terra, de descida, de afundamento, de esteitamento como quando um velhote definha ou que a vegetação se encolhe.

Os mesmos textos que relacionam os Hun a atividade e ao movimento associam os Po a imobilização, ao golpe que imobiliza, como numa pega de luta livre, quando um corpo abraça um outro, se encosta a ele, faz pressão nele, o segura e o mantém. O trocadilho mais usual faz-se então com o caráter homófono po  ,, que significa segurar de perto, pressão, coagir, agarrar[6].

O apego ao corpo caracteriza os Po ; eles não podem escapar das substâncias corpóreas às quais eles são intimamente entrelaçados.

A grafia dos carateres hun et po reforça a impressão de um casal cujo um dos membros é destinado a elevar-se em direção ao Céu e o outro a afundar-se na Terra.

Nos textos antigos, Hun e Po aparecem geralmente juntos ; mas Hun como Po podem achar-se em par com outro caráter (ou com uma expressão de dois carateres), o qual se torna então a sua contrapartida, o seu oposto complementar. Veremos à medida dos textos quais são essas associações assim como o que elas nós desenham sobre o significado dos Hun e dos Po.





[1] Cf. por ex. a expressão «all souls» em inglês para falar dos defuntos, desses de quem nós nos lembramos o ''Dia dos Finados'' (2 de novembro).
[2] Veremos mais adiante como evolui essa tradução conforme trata-se dos Hun ''almas espirituais'' ou dos Po ''almas corporais''. Indiquemos também que varios outros carateres chinese podem ser traduzidos pela palavra alma quando o contexto o necessita ; por exemplo, , shen (espíritos, ), qi (sopros, ), xin (coração, ), ling (), etc. Do mesmo modo, para traduzir a palavra alma em chinês varias opções se oferecem ao intérprete contemporâneo.
[3] Dictionnaire étymologique explicatif, paru en 121 ap. JC.
[4] Notar que a graphia simplificada de  é .
[5] O Baihutong, capítulo 8, fala : «Os Hun viajam sem tréguas (yun yun 伝伝); eles vão sem cessar (xing bu xiu 行不休). São os sopros do Shaoyang; por isso eles se mexem sem parar (dong bu xi 動不息); para o homem, eles são (o movimento em direção a) o exterior.»
E o Wuxing dayi : «O Fígado aglutina os Hun : os Hun devem o nome deles ao movimento, a atividade (yun dong 運動). O Fígado, é o Shaoyang; a natureza do yang é mexer e ativar-se.»
[6] O Baihutong, capítulo 8, fala : «Os Po são como o que se pega aos homens de modo insistente (po ran zhu ren 迫然著人). Eles são os sopros do Shaoyin, a imagem do metal e das pedras; eles ficam ligados aos homens sem ir em outro lugar.»
E o Wuxing dayi : «O Pumão aglutina os Po : os Po devem o seu nome a adherência mútua (xiang zhu 相著). O Pulmão, é o Shaoyin; a natureza do yin é ficar calma e tranquilo (tian jing 恬靜).»

sábado, 11 de novembro de 2017

YONG 永 *

YONG  *
Constante , perpétuo, de longa duração 

Perpétua Mutação
O que existe?
O que existe constantemente?**

Nos textos antigos chineses, as explicações dadas para este caractere tomam a imagem de um rio. Porque o rio está sempre no mesmo lugar , mas a água muda continuamente. Uma gota d’água nunca é a mesma gota d’água.
Interessante notar que na filosofia grega há a mesma reflexão mas, porém, leva à uma direção oposta, leva ao aspecto efêmero das coisas.

A questão é: qual é a identidade do rio?
Será que é o mesmo rio, mesmo em constante mutação?
Ele tem a mesma fonte, ele tem o mesmo percurso, ele se joga no mar,ele tem água... Então, o que muda? O que é constante no rio?
É o fluxo continuo que não muda. É isso que é real.
O que existe é o fluxo, o movimento de transformação contínua. E é esta transformação contínua que faz com que o rio nunca seja o mesmo. O rio existe.
Não se pode ver uma gota d’água. A água é a mesma e não é a mesma. Esse fluxo é a constante do rio. O que é diferente de dizer que o que é constante é rígido, inflexível.

Continuando com esta imagem, podemos nos interessar por uma gota. No frio do inverno, uma gota d’água pode congelar e este pedaço de gelo tem uma identidade particular. Logo chega a primavera, o gelo derrete e retorna ao fluxo do rio. É a mesma água antes de se tornar gelo.
A água é uma metáfora do Qi. O Qi é a transformação perpétua no interior de tudo. O Qi que não tem definição particular. O Qi que não é o Qi. O que tem uma potencialidade infinita e indefinida. Que podemos também chamar de Qi original, sinônimo do Grande Vazio.
Isso é um jeito de falar daquilo que é indizível.
Podemos ter imagens diferentes de coisas diferentes. Podemos dizer que Qi existe antes de qualquer coisa aparecer.
Qi tem o movimento de se juntar e nesta concentração se transforma e faz aparecer as diversas formas de vida. Mas estas formas de vida vão se desfazer um dia e retornar ao que não tem forma, ao Grande Vazio.

Entendendo isso, podemos acrescentar outras coisas:
Será que eu sou o gelo?
Eu sou interação entre Yin e Yang. Algo que existe entre o Céu e a terra.
Mas será que esta interação que existe, ela é mecânica?
O espírito humano nunca aceitou esta ideia; será que procuro outra coisa para não ficar louca(o)?

O que define o ser humano é ter uma consciência. Esta consciência de que sou o resultado de uma interação que um dia irá se desfazer. Não é fácil de aceitar que somos uma forma de vida cheia de vitalidade e que um dia irá morrer.

Então, o que fazemos com esta constatação?
Uma saída é a loucura. A loucura existiu em todas as épocas das civilizações.
Mas podemos dizer que existimos também em um não-sentido, numa falta de sentido. Podemos viver desta forma, aceitar. Existir em um não-sentido. Ou então podemos dizer que temos uma consciência, e isso quer dizer algo. Mas a partir deste momento, esta consciência gera uma responsabilidade. Não se trata de uma abordagem religiosa, embora existam cruzamentos com  abordagens religiosas. Se tenho consciência de ser uma forma de vida no meio das milhões de formas de vida no universo que, como eu, são formadas de condensação de Qi que também vão se dissipar, é esta consciência que me diferencia das outras formas de vida que existem.
 Nos textos clássicos esta consciência se chama o dom do céu. Este dom do céu é a capacidade de compreender, de ter consciência dos movimentos da vida. Isto é particular ao ser humano: ver o que se passa na natureza, observar a alternância das estações. E assim tirar as consequências desta constatação.
Contemplando e estudando estes movimentos, o espírito humano conseguiu estabelecer modelos e identificar um tipo de ordem no movimento do Qi. E consideram (pensamento chinês) estes modelos como uma organização subjacente a todas as formas de vida.
Por exemplo, observavam o bambu e o viam nascer e crescer. O bambu nos diz muito sobre o movimento vital.
Como sabemos dizer que o bambu sabe viver?
A sua circunferência é sempre a mesma. O bambu conserva a força vital durante todo o seu movimento de crescimento.
Então, se eu quero conservar minha força vital, é ideal que eu observe o bambu.
O sábio chinês observa que o bambu sabe parar. Quando o bambu cresce e chega a um ponto máximo de um movimento, ao invés de continuar forçando para crescer mais ainda, ele faz um nó, ele volta para ele mesmo se recuperando e depois relança o crescimento.
O ritmo é fundamental. A força vem da harmonia. Sem repouso, não posso agir. Então não se pode concretizar nada sem o repouso.
Mas podemos projetar outras coisas: o bambu é resistente e o ponto mais difícil de quebrar é onde ele é vazio dentro. Podemos constatar que a força do bambu vem desta natureza.
O espírito humano observa o bambu e tira as lições: então eu durmo quando o sol se põe e acordo quando ele se levanta.
O espírito humano tem a capacidade de elaboração, mas por quê?
Porque tem uma outra coisa que é especifica no ser humano e está ligada a sua consciência. Por que ele não é mecânico, ele não está totalmente na sua vida instintiva. Como sabemos disso?
Olhamos para qualquer humano, ele destrói sua vitalidade com as paixões, ele se coloca na desordem dele próprio em relação a ordem que observa da natureza. Vocês já viram algum animal selvagem morrer de indigestão?
Então me encontro face a um ser que está implicado neste sistema de comunhão do Qi e dos sopros, mas que tem a responsabilidade de regular seus próprios sopros de acordo com a ordem natural. E isso dá um sentido à vida.
Na china antiga, este sentido não é o mesmo na confucionismo ou no taoismo. No confucionismo, o ser humano é corresponsável da ordem cósmica, natural, tal qual ela se desenvolve nele mesmo, na sua família, na sua comunidade assim como no conjunto inteiro do planeta. O homem é responsável pela forma como a troca de sopro acontece; toda conduta emite sopros que vai perturbar a ordem natural. Mas isso mostra um lado grande do homem, ele é um dos três poderes do universo. Mesmo se sua vida pessoal é limitada ele tem uma grandeza que pode ir além dele, mesmo quando não se esta mais aqui.

Na china tradicional existe no culto aos ancestrais a ideia de que o que eu sou atualmente não irá desaparecer completamente com minha morte. A partir destas constatações vêm várias crenças. Para Confúcio o que é importante é participar agora da ordem das coisas.
Para os taoístas, a realização plena da natureza humana não é simplesmente colocar a ordem no mundo, da sociedade, etc. Mas incorporar completamente em mim mesma(o) as transformações vitais tais quais elas se apresentam. Então não estou preocupada(o) em ser um gelo porque eu tenho consciência de que este gelo é um estado temporário que um dia irá descongelar. Significa alcançar um nível de Consciência que vai além da consciência e que me faz estar conectada(o) com a unidade.
Mas o que é a unidade? É o rio. Eu já sou o rio e serei sempre o rio.

*É a parte à direita do caractere MAI, circulações vitais , pulsos,
sempre traduzido por « vaso ».Mai :  ou .
E a parte da esquerda , a carne  =  .


**Transcrição de trecho da explanação de Elisabeth Rochat sobre “O Movimento Vital”:
(http://elisabethrochat.blogspot.fr/2017/08/o-movimento-vital-segundo-visao-chinesa.html)

Transcrição feita por  Regina Nakamura
São José dos Campos, 31 de Julho de 2017






quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Fotos dos Seminários e Conferencias no Brasil 2017


Santa Maria – RS -29,30 de julho 2017
http://www.ibrampa.com.br

“Doença e Cura na China Tradicional”
Conferência

“O Rei , O Sábio e o Terapeuta :
 três aspectos de uma mesma realidade.”



























São José dos Campos – SP - 1 e 2 de agosto  2017
artecorporalchinesa.wixsite.com/praxis/programacao/

“As Emoções – significação, normalidade e patologia”.
Conferência
“Cura e Tratamento na China Tradicional “.







Goiânia- GO - 4,5,6 agosto 2017
douglasmongental@gmail.com

 “A Energia Yin .O Feminino , seu desenvolvimento e importância em todo ser humano “.
“A Mulher e as relações do útero com os órgãos e meridianos”.
“As Seis Vísceras Extraordinárias”.
 Conferência

“O rítmo no coração da vida ou a lição do nó do bambu (jie 節)”
















Londrina – PR -11,12,13 de agosto
aba.londrina@gmail.com
 
"Fisiologia em MTC :manifestações e funções dos sete tipos de Qi no organismo - Yuan,Zong,Ying,Wei Zheng Xie e Zhen."
“As causas das doenças em MTC:detalhamento dos seis Sopros patológicos (liu yin 六淫 ) – vento, calor, humidade, frio,secura ,fogo.”

Conferência
“Estudo dos textos taoistas :Visão das Origens além do Céu e Terra”.

















Recife – PE - 18,19 , 20 de agosto
“Fisiologia do Cérebro e os órgãos dos sentidos”.
“Os Meridianos Extraordinários e seus pontos mestre”
 Conferência
“ O Coração do terapeuta no pensamento chinês clássico”












As Emoções

Elisabeth Rochat de la Vallée Traduzido por Marcelo Nunes e revisão de  Ephraim Ferreira Medeiros Desejos e paixões são considerados pelos p...