quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Conversando com Elisabeth Rochat de la Vallée


Perpétua Mutação
O que existe?
O que existe constantemente?

YONG  *
Constante , perpétuo, de longa duração .

Nos textos antigos chineses, as explicações dadas para este caractere tomam a imagem de um rio. Porque o rio está sempre no mesmo lugar , mas a água muda continuamente. Uma gota d’água nunca é a mesma gota d’água.
Interessante notar que na filosofia grega há a mesma reflexão mas, porém, leva à uma direção oposta, leva ao aspecto efêmero das coisas.

A questão é: qual é a identidade do rio?
Será que é o mesmo rio, mesmo em constante mutação?
Ele tem a mesma fonte, ele tem o mesmo percurso, ele se joga no mar,ele tem água... Então, o que muda? O que é constante no rio?
É o fluxo continuo que não muda. É isso que é real.
O que existe é o fluxo, o movimento de transformação contínua. E é esta transformação contínua que faz com que o rio nunca seja o mesmo. O rio existe.
Não se pode ver uma gota d’água. A água é a mesma e não é a mesma. Esse fluxo é a constante do rio. O que é diferente de dizer que o que é constante é rígido, inflexível.

Continuando com esta imagem, podemos nos interessar por uma gota. No frio do inverno, uma gota d’água pode congelar e este pedaço de gelo tem uma identidade particular. Logo chega a primavera, o gelo derrete e retorna ao fluxo do rio. É a mesma água antes de se tornar gelo.
A água é uma metáfora do Qi. O Qi é a transformação perpétua no interior de tudo. O Qi que não tem definição particular. O Qi que não é o Qi. O que tem uma potencialidade infinita e indefinida. Que podemos também chamar de Qi original, sinônimo do Grande Vazio.
Isso é um jeito de falar daquilo que é indizível.
Podemos ter imagens diferentes de coisas diferentes. Podemos dizer que Qi existe antes de qualquer coisa aparecer.
Qi tem o movimento de se juntar e nesta concentração se transforma e faz aparecer as diversas formas de vida. Mas estas formas de vida vão se desfazer um dia e retornar ao que não tem forma, ao Grande Vazio.

Entendendo isso, podemos acrescentar outras coisas:
Será que eu sou o gelo?
Eu sou interação entre Yin e Yang. Algo que existe entre o Céu e a terra.
Mas será que esta interação que existe, ela é mecânica?
O espírito humano nunca aceitou esta ideia; será que procuro outra coisa 
para não ficar louca(o)?

O que define o ser humano é ter uma consciência. Esta consciência de que sou o resultado de uma interação que um dia irá se desfazer. Não é fácil de aceitar que somos uma forma de vida cheia de vitalidade e que um dia irá morrer.

Então, o que fazemos com esta constatação?
Uma saída é a loucura. A loucura existiu em todas as épocas das civilizações.
Mas podemos dizer que existimos também em um não-sentido, numa falta de sentido. Podemos viver desta forma, aceitar. Existir em um não-sentido. Ou então podemos dizer que temos uma consciência, e isso quer dizer algo. Mas a partir deste momento, esta consciência gera uma responsabilidade. Não se trata de uma abordagem religiosa, embora existam cruzamentos com  abordagens religiosas. Se tenho consciência de ser uma forma de vida no meio das milhões de formas de vida no universo que, como eu, são formadas de condensação de Qi que também vão se dissipar, é esta consciência que me diferencia das outras formas de vida que existem.
 Nos textos clássicos esta consciência se chama o dom do céu. Este dom do céu é a capacidade de compreender, de ter consciência dos movimentos da vida. Isto é particular ao ser humano: ver o que se passa na natureza, observar a alternância das estações. E assim tirar as consequências desta constatação.
Contemplando e estudando estes movimentos, o espírito humano conseguiu estabelecer modelos e identificar um tipo de ordem no movimento do Qi. E consideram (pensamento chinês) estes modelos como uma organização subjacente a todas as formas de vida.
Por exemplo, observavam o bambu e o viam nascer e crescer. O bambu nos diz muito sobre o movimento vital.
Como sabemos dizer que o bambu sabe viver?
A sua circunferência é sempre a mesma. O bambu conserva a força vital durante todo o seu movimento de crescimento.
Então, se eu quero conservar minha força vital, é ideal que eu observe o bambu.
O sábio chinês observa que o bambu sabe parar. Quando o bambu cresce e chega a um ponto máximo de um movimento, ao invés de continuar forçando para crescer mais ainda, ele faz um nó, ele volta para ele mesmo se recuperando e depois relança o crescimento.
O ritmo é fundamental. A força vem da harmonia. Sem repouso, não posso agir. Então não se pode concretizar nada sem o repouso.
Mas podemos projetar outras coisas: o bambu é resistente e o ponto mais difícil de quebrar é onde ele é vazio dentro. Podemos constatar que a força do bambu vem desta natureza.
O espírito humano observa o bambu e tira as lições: então eu durmo quando o sol se põe e acordo quando ele se levanta.
O espírito humano tem a capacidade de elaboração, mas por quê?
Porque tem uma outra coisa que é especifica no ser humano e está ligada a sua consciência. Por que ele não é mecânico, ele não está totalmente na sua vida instintiva. Como sabemos disso?
Olhamos para qualquer humano, ele destrói sua vitalidade com as paixões, ele se coloca na desordem dele próprio em relação a ordem que observa da natureza. Vocês já viram algum animal selvagem morrer de indigestão?
Então me encontro face a um ser que está implicado neste sistema de comunhão do Qi e dos sopros, mas que tem a responsabilidade de regular seus próprios sopros de acordo com a ordem natural. E isso dá um sentido à vida.
Na china antiga, este sentido não é o mesmo na confucionismo ou no taoismo. No confucionismo, o ser humano é corresponsável da ordem cósmica, natural, tal qual ela se desenvolve nele mesmo, na sua família, na sua comunidade assim como no conjunto inteiro do planeta. O homem é responsável pela forma como a troca de sopro acontece; toda conduta emite sopros que vai perturbar a ordem natural. Mas isso mostra um lado grande do homem, ele é um dos três poderes do universo. Mesmo se sua vida pessoal é limitada ele tem uma grandeza que pode ir além dele, mesmo quando não se esta mais aqui.

Na china tradicional existe no culto aos ancestrais a ideia de que o que eu sou atualmente não irá desaparecer completamente com minha morte. A partir destas constatações vêm várias crenças. Para Confúcio o que é importante é participar agora da ordem das coisas.
Para os taoístas, a realização plena da natureza humana não é simplesmente colocar a ordem no mundo, da sociedade, etc. Mas incorporar completamente em mim mesma(o) as transformações vitais tais quais elas se apresentam. Então não estou preocupada(o) em ser um gelo porque eu tenho consciência de que este gelo é um estado temporário que um dia irá descongelar. Significa alcançar um nível de Consciência que vai além da consciência e que me faz estar conectada(o) com a unidade.
 Mas o que é a unidade? É o rio. Eu já sou o rio e serei sempre o rio.



*É a parte à direita do caractere MAI, circulações vitais , pulsos, sempre traduzido 
por « vaso ».Mai :  ou .E a parte da esquerda , a carne  =  .


Transcrição de trecho da explanação de Elisabeth Rochat de la Vallée sobre 
“O Movimento Vital”. . 
Transcrição feita por  Regina Nakamura
São José dos Campos, 31 de Julho de 2017







Relação Paciente e Terapeuta

Elisabeth Rochat de la Valée Uma relação se estabelece sempre que seres se encontram. Ela é ainda mais forte quando esses seres se foca...