quarta-feira, 17 de abril de 2019

A Forma Corporal – XING 形


Elisabeth Rochat de la Vallée *

Tradução  Fernando Assis de Carvalho
Caracteres Hélvio Lima



É o corpo sob o ângulo da forma corporal, de sua forma diferenciada.

                “Por FORMA CORPORAL, é preciso compreender em que os seres que possuem forma e imagem são diferentes.” (釋名 shìmíng[i])

                形幼形象之異  xíng yòu xíng xiàng zhī yì.

O SuWen em sua definição de xíng , retoma igualmente o termo xiàng ,imagens:

                “A forma corporal é imagem” (SuWen Jiezi)
                形象也 xíng xiàng yě

e o comentarista Tuan Yucai[ii] precisa:

“Imagem (xiàng ) é colocada por representação (xiàng ). Isso quer dizer que é uma forma que se assemelha e que, consequentemente, podemos ver.”  

象當作像謂像似可見者也  xíng dāng zuò xiàng wéi xiàng sì kě jiàn zhě yě
Observemos de mais perto o significado de xiàng ou .

O primeiro sentido de xiàng é o de elefante (o caractere representaria a tromba, as defesas, as patas e a cauda do animal).
O segundo sentido, que se segue naturalmente, é o do marfim. Mas os outros sentidos em seguida nos colocam um problema. Chegamos a noções das formas, figuras, semelhanças, símbolos, representações, aparências, corpos celestes... Alguns dizem que estes sentidos derivariam daquele do elefante, pois este animal teria desaparecido bem cedo das regiões da China onde a escrita foi elaborada. Assim, xiàng , o elefante, restou apenas como uma palavra, uma imagem, uma representação figurada, gravada ou pintada de um animal desaparecido. De lá o sentido de imagens, representações...
Quando adicionamos o radical “homem” , obtemos xiáng , este caractere que vai no sentido das formas, imagens, retratos, ou mesmo estátuas, representações em geral; mas também semelhança, impressão deixada por qualquer coisa.
O que quer que seja, xiáng evoca uma imagem, uma forma deixada ou criada por uma realidade sem forma. Os fenômenos, xiáng , apresentam-se a nossa observação como a nossa ação. Eles têm origem na realidade indizível do Tao ou Caos.

“O grande símbolo está sem contorno” (Lao Tsé, cap. 41)    
大象無形 dà xiàng wú xíng.

O grande símbolo, o símbolo absoluto, está sem contorno, pois nenhuma forma se adapta a ele. O que é apenas “sem contorno”, “sem forma” 無形 (wú xíng), o é, não pelas representações fenomênicas particulares, mas o Grande Símbolo, dà xiàng 大象 é a ordem do absoluto, do Tao, além do mundo sensível.

Com a forma xíng nós somos introduzidos no mundo sensível, diversificado, onde as formas, provenientes do sem forma, são múltiplas e revestidas cada uma de características próprias.  
A decomposição do carácter xing faz aparecer duas partes:

- a fonética, etimologicamente a imagem de dois pratos de balança em equilíbrio : há algo de bem construído e solidamente equilibrado, para servir de base, de fundação.

- o radical : são os pelos, as plumas, os cabelos; algo de leve e flutuante que vem revestir e ornar a fundação, a designando ao olhar manifestando a vida pelo movimento de flutuar ao vento. É a bandeira, o estandarte, o signo de reconhecimento.
Utilizar uma forma normal dos seres sensíveis é pegar um lugar entre todos os seres diferentes que vivem entre o Céu e a Terra. Os dez mil seres são na medida do possível formas diferenciadas:

“Produzidos pelo Caminho, nutridos pela Virtude, figurados pela Espécie, finalizado pelo Entorno, os Dez mil seres”.
 (Lao Tsé, cap.51; trad. Claude Larre)

道生之 德畜之 物形之 勢成之 是以萬物
Dào shēng zhī Dé chù zhī wù xìng zhī shìyǐ wànwù

Quando Yu o Grande percorria o Império, chegando ao país dos homens nus, ele retirou suas roupas, deixando este país, ele retomou suas roupas. Da mesma forma, os seres se revestem e depois retiram um aspecto sensível; eles entram, pelo nascimento, no mundo das formas, das espécies; eles saem pela morte, para retornar ao “sem forma” (無形wù xìng ), ao invisível, ao informe, que é o reservatório inesgotável da vida e de potencialidades. Assim
           “O sem Forma, é o ancestral primeiro dos seres” (Huainanzi, cap. 1)
夫無形者 物之大祖也  fū wúxíng zhě wù zhī dà zǔ yě

ou um pouco mais longe:

                “Entramos, é a vida. Saímos, é a morte. Do sem Forma se passa ao que há uma e do que há uma forma, passa-se ao eu não tem.”

出生入死 自無蹠有 自有蹠無   chū shēng rù sǐ zì wù zhí yǒu zì yǒu zhì wù
A mesma ideia se encontra no Zhuangzi:

“O grande começo é o Sem Forma, é o Sem Nome. O Um que surgiu é o Um sem forma corporal; e do que os seres são produzidos é a Virtude. Do Sem Forma, se produz a distinção e de lá continuamente o que chamamos de destinos (particulares). Dois, entre o repouso e o movimento, nascem os seres vivos. A disposição natural do nascimento e do término dos seres é o que chamamos de forma corporal. A forma corporal e a constituição abrigam os espíritos, fazendo de cada ser um ser próprio, e isso chamamos de sua natura (própria).” (Zhuangzi, cap. 12)

泰初有無 有無名 一之所起 有一而未形. 物得以生 謂之德
Tài chū yǒuwù yǒuwúmíng yī zhī suǒ qǐ yǒu yī ér wèi xíng wù déyǐ shēng  wèi zhī Dé
物得以生 謂之德 未形者有分 且然無間 謂之命
Wù déyǐ shēng, wèi zhī dé wèi xíng zhě yǒu fèn qiě rán wújiàn, wèi zhī mìng
留動而生物,物成生理,謂之形 形體保神,各有儀則,謂之性
liú dòng ér shēngwù  wù chéng shēnglǐ  wèi zhī xíng xíng tǐ bǎo shén gè yǒu yí zé  wèi zhī xìng.

As formas diferenciadas surgem do que é sem forma e é aí  a origem de cada ser, de cada forma figurada na sua originalidade própria; é o que o permite de se individualizar ao mesmo tempo por uma aparência, uma forma corpórea e pela presença do shén , dos espíritos específicos e de se realizar em um destino.
A formação e a estruturação do ser humano procedem assim. Aqui uma passagem do começo de uma compilação médica:

“O Dao do corpo (humano, representação e estrutura), é do Não Ter ao Ter (formas). O Não Ter (o Sem Forma), são os sopros do Céu Anterior. O Ter (as formas), são as formas do Céu Posterior.” (Leijing Tuyi)

體象之道  自無而有者也  無者先天之氣  有者後天之形
Tǐ xiàng zhī dào   zì wù ér yǒu zhě yě   wù zhě xiāntiān zhī qì   yǒu zhě hòutiān zhī xìng.

O princípio que governa um corpo estruturado e apresentando uma aparência em função de linhas de força de sua estrutura interna é que “isso” começa dentro do Sem Forma para ir às formas. E o texto continua:

“Mestre Shao dizia: o Céu se apoia sobre as formas: a Terra serve aos sopros. Os sopros para criar as formas; as formas para abrigar os sopros.”

劭子曰 天依形地附氣氣以造形形以寓氣
Shào zǐyuē tiān yī xìng Dì fù qì qì yǐ záo xìng xìng yǐ yù qì

A forma corporal, xìng se apresenta imediatamente a nossa percepção: o que se vê, se escuta, se sente... (mas, igualmente, o que vê, toca, escuta, sente... exerce a atividade sensorial, sensível que o corresponde).
A forma corporal exprime sensivelmente a estrutura profunda, não visível; e é o local da circulação dos próprios do indivíduo, animadores e produtores ao mesmo tempo da estrutura (as linhas de força) e da forma.
Uma forma, xíng não é uma ilusão de ótica, uma aparência falaciosa, um engano, uma ilusão, uma imagem imaginária. A forma é aquilo que ela mostra, a expressão confiável de uma realidade subjacente. Uma pessoa se revelará pelo corpo, pelo seu corpo que depende, por exemplo, da forma e da grandeza de seus ossos, de sua hereditariedade, mas também de seu estado geral e, sem qualquer dúvida, de seu estado mental e espiritual.
O corpo, a forma corporal, xìng , é o lugar onde acontece a agressão do perverso (agentes de patologias) e aquele onde ocorrem as intervenções que reestabelecem a normalidade. Ele é o intermediário da cura. Forma corporal e perverso se encontram no mesmo nível de realidade, de sensibilidade, pois o corpo é ativo pelos sentidos e sofre a ação dos sentidos dos outros. A forma corporal é o terreno das ações sensíveis e reparáveis. A verdadeira ação, notadamente terapêutica, se situam no nível mais sutil dos sopros e das almas. Mas estes não são diretamente perceptíveis. Não vemos jamais o vento, somente os galhos e as folhas que balançam; assim, sabemos que há vento. Sabemos mesmo, observando bem, em qual sentido ele sopra, com qual força, como se proteger ou proteger a casa.
A dialética Sem forma/Forma ou mesmo sopros/forma sensível é a vida. O Shiming[1], na sua primeira seção consagrada ao Céu dá a seguinte definição para os sopros, qi :

“O que percebemos (que escutamos), mas que não há forma.” (Shiming)
有聲而無形yǒu shēng ér wù xìng

A forma, xìng , é o terreno onde se apresentam as diversas ações da vida, as quais podemos ver se manifestar. As formas variam com os momentos e os lugares.
Vemos por exemplo a geografia frequentemente explicar a compleição física, a forma corporal: os homens que nascem nas regiões do Sul são caracterizados de tal e tal maneira, pela diferença com os do Norte ou do Leste...
Os textos de Huainanzi e ainda, de Shanhaijing (clássico das Montanhas e dos Mares) nos informa sobre a forma na qual o Oriente, o lugar de nascimento, determina algumas características físicas, ou mesmo morais do indivíduo. Os textos médicos tais como Huangdi Neijing, insistirão, naturalmente, sobre as propensões das patologias em função do local de nascimento e de moradia.




[1] Dicionário chinês consagrado à fonologia que possuía fonologia do dialeto dos Han do leste.


[i] 釋名 Shìmíng – «explanação sobre os nomes», dicionário fonológico chinês do final da Dinastia Hàn (200 EC)
[ii] Dùan Yùcái 段玉裁 (1735-1815 EC) autor de  說文解字註 shuōwénjiězì zhù.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019





Programa no Brasil em agosto 2019


João Pessoa - PB

01,02,03,04 :
Congresso Franco-Brasileiro de Medicina Tradicional Chinesa ‘Yang Shen 養生 
Como nutrir a vida para um envelhecimento saudável,prevenindo os cansaços, fadigas, e o declínio prematuro dos Rins’ .




Londrina – PR

09 : Conferência
"O ritmo no coração da vida ou os ensinamentos do nó do bambu jie  "

10 e 11: Seminário
"Os 12 Pontos de Ma Danyang"



Brasīlia -DF

12 e 13 : Seminário 
"As Emoções segundo a Medicina Tradicional Chinesa".

14 : Conferência 
“A Relação Paciente e Terapeuta segundo os Textos Clássicos Chineses”.




São Paulo –SP

16: Atelier clínico
‘Patologias Wei’.

17 e 18: Seminário 
"Os 5 Sopros dos 5 Elementos ,base da fisiopatologia dos órgãos Zang,segundo o Suwen 39".



Monteiro Lobato – SP

19: Conferência 
"Tao The King -apresentação do texto".

20 e 21 -"Seminário Internacional de Sabedoria Milenar Chinesa: ‘Tao The King"(Dao De Jing).
-Prática de Qigong com a professora Maria Lucia Lee.





Porto Alegre – RS

23: Conferência 
“Autêntico,Autenticidade ou Zhen”

24 e 25: Seminário
"O envelhecimento nos textos médicos clássicos chineses - nutrir a vida para envelhecer bem 養生."

http://www.ibrampa.com.br 




Programme au Brésil en août 2019
(toutes les activités sont  avec traduction en portugais)



 1,2,3, 4 août : JOÃO PESSOA / Paraíba

I Congrès Franco-Brésilien de Médecine Traditionnelle Chinoise
 ‘Yang Shen – comment nourrir sa vie pour un vieillissement en bonne santé’

(83) 98817-1859

  9 ,10,11 août : LONDRINA / Paraná

Séminaire Internationale d’Actualisation en MTC
‘Les 12 Points de Ma Danyang’
‘Les enseignements du nœud du bambou’

(43) 99649-7173 

  12 ,13,14 août : BRASÍLIA / DF

‘Les Émotions selon la MTC’.
‘La Relation Patient Thérapeute selon les Textes Classiques Chinois’

(62) 99856-5506

  16,17,18 août : SÃO PAULO / SP 

‘Les Pathologies Wei’
‘Les 5 Souffles des 5 Eléments’

(62) 98423-2044

  19 ,20,21 août: MONTEIRO LOBATO / SP

Dao De Jing - Présentation et approfondissement.
Pratique de Qigong des Symboles, avec Maître Maria Lucia Lee.

(12) 99143-8051

  23 ,24, 25 août : PORTO ALEGRE / RS

‘Le Vieillissement dans les Textes Classiques Chinois’
'l’Authentique,L’Authenticité.’

(55) 99706-2368



https://www.facebook.com/Y%C3%AC-2075722852511099/

intencaoyi@gmail.com 


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

A Tristeza - 悲 – Bei





Elisabeth Rochat de la Vallée *


Traduzido por Fernando Assis de Carvalho

A TRISTEZA NORMALMENTE EXPERIMENTADA

Tristeza e aflição, antes de serem patológicas, são reações, sentimentos normais e desejáveis. A tristeza devora interiormente frente à morte de um pai. Não se deve negá-la, nem a impedir, mas sim, exprimi-la:

Quando retiramos a urna funeral (para preparar o enterro) o filho chorava, se lamentava et saltava um número de vezes indeterminado. Sob o peso da dor e da tristeza do seu Coração, dentro da penível agitação de seu espírito (yi ), nos abraços da tristeza e da aflição (bei ai 悲哀), ele despiu o braço esquerdo e saltava, na intenção de acalmar seu Coração (an xin 安心) e de reduzir seu fôlego (xia qi 下氣) colocando seus membros em movimento’’ 
(Liji, Memórias sobre decoro e cerimônias, S. Couvreur, tradução revisada)

Observamos que o colocar do corpo em movimento impede que a respiração se bloqueie no peito, o que facilitará o retorno à normalidade.
Podemos também dizer que as manifestações exteriores da tristeza associam esta última com os movimentos e gritos rituais. A diminuição de suas manifestações, sempre, segundo as prescrições rituais, leva também à diminuição da tristeza ao mesmo tempo, porque nos autorizam a estar menos tristes e porque a ligação estabelecida entre a tristeza e suas manifestações incita naturalmente uma redução comum.
Se o luto e a tristeza são normais, eles não devem durar. Em três anos (frequentemente 25 meses, primeiro mês do terceiro ano contado por um ano inteiro), devemos retomar a vida normal:

“Um filho, à morte de seu pai, chorava sem interrupção durante três dias; em três meses ele não tirou nem a faixa e nem o cinto de cânhamo; durante um ano (ele chorava manhã e noite) com um profundo sentimento de tristeza (bei ai 悲哀); seu sofrimento (opressivo, you ) durou três anos. Os testemunhos de enfermidade estavam, assim, reduzindo. A dor decrescia com o tempo, os sábios antigos haviam determinado como sua manifestação deveria diminuir gradualmente. Por isso, então, a duração do luto foi fixada em três anos e a liberdade não foi deixada aos mais sábios para prolonga-la, nem aos menos sábios de reduzi-la.” (Liji, Mémorias sobre decoro e cerimônias, S. Couvreur II, p.704, tradução revisada)

A tristeza avançando até a angústia é, assim, o sentimento próprio que experimentamos frente à morte, aquele que deve se sentir o “filho devoto” à morte de um parente, e primeiramente de seu pai. É o luto conduzido, o sentimento que acompanha a partida definitiva do vivo que transmitiu a vida. O Livro dos Ritos é abundante em considerações sobre a tristeza e a angústia; ele descreve as manifestações físicas, as alterações da aparência, as atitudes do luto da alma; ele mostra como o grito, choro, saltos de dor são maneiras de fazer a tristeza ser suportável, de diminuir a angústia intensa pelo movimento dado ao corpo e como todo o processo deve ser, em Três anos, para trazer de volta a paz no Coração do angustiado.

Desde já, observamos o quanto a tristeza e a angústia carregam golpes repetitivos ao sentimento profundo de existir, à vivacidade que procura se exprimir e surgir, a se desprender continuamente. Observarmos um luto de um pai, mas sempre por três anos. Seguir o luto, de um tempo passado, seria um excesso; a recusa da realidade, tenha sido ela dolorosa, agrava o sofrimento e destrói a saúde. Carregar o luto de si mesmo, experimentar o sentimento de perda da vida sendo que vivemos ainda é uma perversão grave. A vida se vinga e a morte é gerada do próprio luto, pois nós abalamos o interno, atacamos o centro da vitalidade, viramos as costas à razão.

A TRISTEZA, SENTIMENTO DO PULMÃO

A tristeza bei: o Coração que (se) recusa : o virar de costas da pessoa para ela mesma no seu Coração, como uma presa à contradição, à negação, possivelmente à negatividade. O esgotamento que resulta desta luta estéril destrói o sopro na região do Coração e do Pulmão. A oposição rompe a comunicação que emana do Coração e corta a alegria da vida; o bloqueio se torna fraqueza, dor, desolação.

“Quando as essências e os sopros anexam o pulmão há tristeza (bei ).” (Suwen 23)

A tristeza corresponde ao Pulmão e é a perversão do movimento do metal. Este último tem o corte das espadas e das foices que cortam cabeças ou ceifam os cereais. Ele é também o ritmo que marca o fim da expansão yang e o começo do retorno ao yin. O metal é condensação e concentração a fim de trazer as riquezas da vida ao interno. Na tristeza, ele se torna compressão que tritura o Coração, incomodando também a circulação do sangue, o qual a qualidade diminui e que expande os Espíritos; esta obstrução aniquila igualmente os líquidos e os sopros do Pulmão.

“Quando há tristeza os sopros são destruídos (xiao ). [...]
Quando há tristeza, o sistema relacional próprio do Coração (xin xi 心繫) está fechado, o pulmão se dilata e suas folhas se levantam; o Aquecedor Superior não garante mais suas comunicações; reconstrução (nutrição) e defesa (ying wei 營衛) não se difundem mais; os sopros quentes estão no centro. É assim que os sopros são destruídos.” (SuWen 39)

É o oposto da alegria que permite a reconstrução, assim como a defesa de se propagar facilmente. O contrário, a tristeza aperta o Coração; o que não é uma metáfora, pois o exagero na concentração própria do Metal aperta as vias pelas quais o Coração se comunica. O sistema relacional próprio do Coração é primeiramente o de conectar o Coração com os outros órgãos, conexão imaterial e espiritual, mas que se torna visível pela circulação sanguínea, em especial pelas artérias que partem do Coração. Os sopros do Pulmão, tomado pela tristeza, bloqueiam as passagens e a circulação de sangue e sopros, ao invés de assegurar suas propagações até os confins do corpo. Os sopros bloqueados no peito geram o calor; calor que destrói os sopros.

Podemos acrescentar que o Coração não podendo mais comunicar pelo sangue e pelos sopros, não pode mais propagar a luz de sua razão, dar inspiração à mente, manter dentro da realidade da existência.

TRISTEZA E CHORO

A mesma situação descrita anteriormente explica também o fluxo de lágrimas, eventualmente acompanhado de catarro, que acompanha a tristeza.

“Os líquidos corporais (jin ye 津液) dos cinco Zang e dos seis Fu sobem até se infiltrar no olho; se o Coração é tomado pela tristeza e os sopros os anexaram (o ocupam indevidamente todo o conjunto, bing ), o sistema relacional do próprio Coração (xin xi 心系) se fecha; o sistema do Coração também se fecha, o Pulmão se eleva e quando ele se eleva os líquidos ye extravasam no alto. Como no sistema do Coração e do Pulmão não podem estar constantemente elevados, ora eles se levantam, ora eles abaixam, é por esta razão que tossimos e que as lágrimas caem.” (Lingshu 36) [1]

O mecanismo é simples: a tristeza comove o Coração pela perversão dos sopros do Pulmão-Metal. O bloqueio dos sopros no peito faz o Pulmão se dilatar e impede de preencher sua função de abaixar os líquidos no tronco; os sopros, impedidos de descer pelo calor que reina no peito, ecoa para cima, impulsionando os líquidos para o exterior. Estes líquidos saem pelo olho, às vezes também pelo nariz, orifício próprio do Pulmão; os sopros e líquidos podem também fazer como uma bola na garganta e emitir sons que são os do pranto.

O derramar das lágrimas é, além disso, conectado ao cérebro, órgão rico em essências e em fluidos preciosos e densos, e em comunicação com os orifícios da face (olho, nariz, orelha). O cérebro é percorrido pelo meridiano conectado ao Fígado, e o olho, o orifício próprio do Fígado, é também, o local de contato do meridiano ligado ao Coração.

A irregularidade dos sopros do Pulmão explica também a tosse ou soluços, assim podem ser pegos por aquele que é esmagado de tristeza.

A TRISTEZA E O CORAÇÃO

Bem sendo o sentimento próprio do Pulmão, pela especificidade do movimento dos sopros que ele induz, a tristeza é frequentemente associada ao Coração, o qual o impede a expressão livre e feliz. A tristeza é, então, o oposto da felicidade, da alegria que se manifesta pelo riso.

No SuWen, cap. 62, lá onde o excesso dos sopros do Coração se traduzem por um riso incontrolável, a insuficiência destes mesmos sopros se traduz pela tristeza. Ou mesmo:

“Quando os sopros do Coração estão em vazio, há a tristeza (bei ); quando eles estão em plenitude, rimos sem poder parar.” (Lingshu 8)

Examinando os pares dos caracteres que exprimem os sentimentos, relevamos de forma habitual, a alegria fazendo par com a raiva e, paralelamente, a felicidade fazendo par ora com a tristeza (bei ), ora com a aflição (ai ).

O caractere para aflição (ai ), representa os gritos, gemidos e lamentações que saem da boca daquele que revestiu os hábitos especiais do luto. A aflição sentida à perda de um ente querido; a dor do luto, publicamente manifestada.

Tristeza e aflição são opostos à alegria de viver, a alegria do Céu, próprio a toda a vida humana que se aceita e se possui. A tristeza torna uma recusa da vida. Em um sentido patológico, os movimentos e reações que implicam a tristeza se opõem àqueles que implicam uma alegria excessiva, possivelmente delirante.

A tristeza aparece regularmente como o sentimento que alguém experimenta quando os sopros do Coração estão bloqueados ou sem força para circular.

“Dor de cabeça devido a um refluxo (ou queda, jue ) onde as circulações (mai) na cabeça são dolorosas, o Coração está triste (bei ), temos a tendência a chorar (shan qi 善泣)...” (Lingshu 24)

Podemos compreender que o Fígado possui os sopros em contracorrente em subida, onde as circulações do sangue e sopros, congestionados, tornam-se dolorosas. Mas, ao mesmo tempo, ele impede o Pulmão de descer e induz um bloqueio em seu nível. O Coração não se beneficia mais do impulso fornecido pelo Fígado para o ajudar a fazer circular, mas sofre do bloqueio; resultando na tristeza. A tendência a chorar é forte pois a contracorrente advinda do Fígado faz pressão sobre os líquidos dos olhos.

Quando falamos do bloqueio dos sopros, da dificuldade em fazer circular o sangue, da agressão levada ao Coração e da falta de comunicação deste último, demonstramos, na verdade, a disfunção daquele que deve proteger o Coração e de o fazer comunicar com o resto da pessoa: o Xinbaoluo (心包絡) ou proteção (bao ) e conexões (luo ) próprias ao Coração (xin )[2].

Assim, quando descrevemos uma situação onde os perversos atingiram o Coração, falamos na verdade de uma situação onde o Xinbaoluo é atingido, quer dizer, uma situação onde o sistema de conexões próprios ao Coração é incomodado, impedido de completar sua tarefa.

“Quando os perversos estão no Coração, o convalescente tem cardialgias com uma tendência a estar triste (xi bei 喜悲); às vezes ele cai do avesso sem conhecimento. ” (Lingshu, 20)

Os sopros perversos fazem pressão sobre a região do Coração. A tristeza aqui não é um sentimento devido a um luto ou um evento real; ela é o resultado da mudança induzida na mente, a sensibilidade, quer dizer, o Coração, pelo bloqueio dos sopros.

Se este bloqueio se agrava, as comunicações são completamente fechadas; o Coração, as consciências, a faculdade de estar consciente, não estão mais presentes no nível dos órgãos dos sentidos e se perde a compreensão.

Ao contrário, a tristeza compromete a boa distribuição do sangue, impede as proteções e conexões do Coração (Xinbaoluo) de comandar regularmente as circulações sanguíneas (xue mai 血脈). Os efeitos podem atingir diferentes partes do corpo, como o baixo ventre onde o útero coleta o sangue, onde o Intestino Delgado guarda separado os líquidos corporais e o sangue controlando seu fogo.

“Quando a tristeza e a aflição (bei ai  悲哀) são intensas, as proteções vitais e suas conexões (bao luo 胞絡) se rompem (jue ); estando rompidas, os sopros yang (yang qi 陽氣) se agitam no interior (nei dong 內動). Quando isso desencadeia, o coração faz descer sob forma de hemorragia uterina et frequentes hematúrias. ” (Suwen, 44)

O Suwen, cap.39, nos mostrou a tristeza fazendo obstáculo às circulações que partem do peito e como os sopros, bloqueados, desaparecem, destruídos pelo calor. No Suwen, cap.44, as conexões próprias às proteções vitais se interrompem sob a pressão dos sopros e os sopros yang, aprisionados, se excitam e criam a agitação. O sangue sai dos seus canais, e mesmo do corpo, sob a pressão do calor.

A expressão “as conexões próprias às proteções vitais” (bao luo 胞絡), pode ser entendida aqui de diversas maneiras:

- É o Xinbaoluo (心包絡), os envelopes que protegem o Coração e as redes de conexões que emanam para religar todo o ser ao Coração, centro da vitalidade consciente e mestre da circulação regular do sangue. O calor excessivo da região do Coração atrapalha o padrão de circulação que ele dá ao sangue; a manifestação se faz no nível do orifício interior anterior.

- É o meridiano extraordinário Chongmai que dá a o primeiro padrão de organização da circulação do sangue no ser em formação e que se espalha no peito.

- São os trajetos dos sopros ligados ao útero, lá, onde uma nova vida se agasalha e se protege, uma ligação com os Rins nas mulheres.

O que quer que seja, há um mau reflorescimento dos sopros, obstrução e calor provocando um esfacelamento no interior; a defesa e as comunicações do Coração são mal garantidas; os Rins estão implicados e o Fígado também.

O Fígado está implicado em diversas denominações: ele acumula o sangue, quer dizer que ele regula a quantidade de sangue a guardar em reserva ou a liberar no corpo, por um esforço muscular, para a menstruação... etc. Ele dá o impulso para as circulações e emissões até a sua saída do corpo; nesta denominação, ele participa na regulação dos orifícios inferiores. Privado de essência, de yin, por contrabalancear seu mal dinamismo, o Fígado perde a paciência, gera um calor que produz circulações erráticas no baixo ventre. O Intestino Delgado, associado ao Fogo, é particularmente sensível a este calor; ele pode perturbar seu funcionamento e provocar hematúrias. O Coração pode igualmente transmitir este calor ao Intestino Delgado.

A TRISTEZA E O FÍGADO

Já vimos o Fígado implicado em diversas patologias ligadas à tristeza. Ele é apresentado seja como a principal causa da tristeza, seja como a função afetada por isso; que o Pulmão-Metal domina o Fogo-Madeira no ciclo de dominação (ke) não é estranho a esse fato.

“Em caso de tristeza (bei ), os sopros do Pulmão montam (colidindo sobre os do Fígado).” (Suwen 19)

Como no Lingshu, cap.24, analisado anteriormente, a agitação do Fígado, produzida pelo vento, induz uma contracorrente de sopros que incomodam e enfraquecem as comunicações do Coração e faz com que sintamos facilmente tristes.

Mas a tristeza atinge o Fígado também, porque a desaparição dos sopros, tolhidos internamente, priva o Fígado do dinamismo necessário a seu bom funcionamento.

“Quando o Fígado está preso pela tristeza e a aflição (bei ai 悲哀), nos emocionamos no centro, então, se produz um ataque aos Hun. Os Hun atingidos, perdemos a razão (kuang , loucura) e nos tornamos esquecidos; ficamos sem essência (jing ); estando sem essência, não podemos mais garantir os padrões; é a situação onde o aparato yin se contrai, onde a musculatura se crispa, onde as costelas de ambos os lados não podem mais se levantar. Os pelos se tornam quebradiços e damos todos os sinais de uma morte prematura. Se morre no outono” (Lingshu 8)

A tristeza se opõe ao impulso da felicidade em direção ao florescimento que é próprio do Fígado. A tristeza é uma recusa; ela contradiz nosso próprio desejo de ir adiante. Por que você está tão triste? Porque você não tem o gosto do esforço espontâneo que faz o movimento vital.

A tristeza se torna uma inversão da vitalidade. Ao invés de espalhar seus galhos e suas folhas em todas as direções, esta planta na primavera que eu sou, retorna contra si mesmo sem ímpeto; veja como agora eu ataco o meu interior.

O efeito produzido é inconfundível. As almas Hun, que são a inteligência e a sensibilidade, reflexão e imaginação, contrariadas em sua liberação e livre movimento, se aterroriza e se esquece. Uma loucura que vai até a fúria. A raiva é associada ao esquecimento, pois não se pode mais fazer um retorno à própria memória, até a destruição da personalidade.  

O Fígado se esvaziando de sua substância, não há nada mais para segurar os Hun para voltar à razão. O sangue não oferece mais uma ligação de expressão aos Hun, pois ele está desnaturado pela agitação e por que o contato com o Coração é difícil pelo bloqueio dos sopros. As essências que se exprimem no sangue do Fígado acabam por faltar.

A falta das essências, em relação com o Fígado, perturba a retidão da realização da vida que depende da fidelidade dos Hun à inspiração das Consciências.

A Vesícula Biliar, o aspecto mais yang, o mais masculino do Fígado é implicado, pois ele não assume mais a retidão e a exatidão das condutas.

A normalidade se torna desorientação; os sopros corretos não podem mais se livrar das essências deficientes; o centro é abalado, o padrão não possui mais uma base.

Alguns dirão que o yang do Fígado e da Vesícula Biliar, muito forte, torna-se inflamação, fogo que vira em direção ao Pulmão-Metal, para lhe causar danos pela inversão do ciclo de dominação (ke); bela expressão da involução quando se retorna contra si mesmo suas forças vivas ao invés de desenvolvê-las.

O sangue não seguindo mais sua via e as comunicações com o Coração estando interrompidas, como os Hun poderiam receber a iluminação das Consciências do Coração para se conformar e as seguir fielmente?

Os Hun não estando mais inspirados, a perda do sangue diminuindo as essências, o cérebro se enfraquece, as essências não se resplandecem mais com a presença das Consciências para o bom funcionamento dos orifícios superiores. A inteligência e a claridade que estão em dependência dos Hun, consequentemente os fenômenos da loucura e do esquecimento. Esta loucura é furiosa (kuang ), pois é um calor e uma agitação yang.

O Fígado controla a atividade muscular; quer dizer que ele dá o dinamismo e o vigor que cria a força do movimento ao mesmo tempo que ele libera a quantidade de sangue requerida pelo músculo afetado pelo esforço. Se as essências secaram no nível do Fígado, não há mais sangue suficiente para irrigar os músculos; crispação e nódulos se manifestam. O espaço central no baixo-ventre, na região do períneo é percorrido pelo meridiano do Fígado que sustenta a musculatura dos órgãos genitais; ele se contrai e se retrai, não podendo mais se desenvolver.

As costelas são percorridas pelos meridianos do Fígado e da Vesícula Biliar. A imobilização desta região é uma consequência da retração do aparelho genital e da crispação muscular. É também a região de localização do Fígado e o sinal de que o dano está agora em seu ponto extremo de involução.

Os efeitos devastadores da tristeza que nascem no interno e mudam a vida a partir do seu centro culminam, finalmente, como é o caso por todas as emoções, perturbando duravelmente e fortemente o ser em direção à morte.

A morte é o outono, a estação onde o yang cede frente ao yin, onde o movimento do retorno a si deve ser iniciado. O desconforto já instalado se redobra de efeitos do ambiente yin que a estação do outono traz com ela. Morre-se no outono e a qualquer período tendo a natureza do outono. Morre-se quando tudo está se recolhendo – mas não temos mais florescimentos, nem essências. Morre-se na colheita dos sopros – mas eles são aniquilados – e ao abrigo das consciências – mas eles não são mais guardados pelas essências deficientes ou confortadas pelos Hun atingidos.

Tristeza e raiva

A tristeza pode gerar a raiva seguindo um processo simples. A tristeza bloqueia as circulações dos sopros, o que exerce uma pressão sobre o Fígado, atrapalhando seu dinamismo. O bloqueio dos sopros do Fígado causa um calor reativo que vai esquentar o sangue e excitar o yang, induzindo uma situação de raiva. É uma evolução que se observa por exemplo nos casos de luto intenso, onde a pessoa se coloca com raiva contra o ente querido que está morto sem nenhuma razão particular.




[1] Um texto similar se encontra no Lingshu cap.28.
[2] Algumas vezes indevidamente traduzido como pericárdio. Seu meridiano, O Jueyin da mão, é um dos dois meridianos ligados ao Coração, aquele que tem a mesma qualidade de sopros que o meridiano do Fígado, Jueyin do pé. O outro meridiano do Coração é o Shaoyin da mão.