quarta-feira, 17 de abril de 2019

A Forma Corporal – XING 形


Elisabeth Rochat de la Vallée *

Tradução  Fernando Assis de Carvalho
Caracteres Hélvio Lima



É o corpo sob o ângulo da forma corporal, de sua forma diferenciada.

“Por FORMA CORPORAL, é preciso compreender  que os seres que possuem forma e imagem são diferentes.” (釋名 shìmíng[i])

                形幼形象之異  xíng yòu xíng xiàng zhī yì.

O SuWen em sua definição de xíng , retoma igualmente o termo xiàng ,imagens:

                “A forma corporal é imagem” (SuWen Jiezi)
                形象也 xíng xiàng yě

e o comentarista Tuan Yucai[ii] precisa:

“Imagem (xiàng ) é colocada por representação (xiàng ). Isso quer dizer que é uma forma que se assemelha e que, consequentemente, podemos ver.”  

象當作像謂像似可見者也  xíng dāng zuò xiàng wéi xiàng sì kě jiàn zhě yě
Observemos de mais perto o significado de xiàng ou .

O primeiro sentido de xiàng é o de elefante (o caractere representaria a tromba, as defesas, as patas e a cauda do animal).
O segundo sentido, que se segue naturalmente, é o do marfim. Mas os outros sentidos em seguida nos colocam um problema. Chegamos a noções das formas, figuras, semelhanças, símbolos, representações, aparências, corpos celestes... Alguns dizem que estes sentidos derivariam daquele do elefante, pois este animal teria desaparecido bem cedo das regiões da China onde a escrita foi elaborada. Assim, xiàng , o elefante, restou apenas como uma palavra, uma imagem, uma representação figurada, gravada ou pintada de um animal desaparecido. De lá o sentido de imagens, representações...
Quando adicionamos o radical “homem” , obtemos xiáng , este caractere que vai no sentido das formas, imagens, retratos, ou mesmo estátuas, representações em geral; mas também semelhança, impressão deixada por qualquer coisa.
O que quer que seja, xiáng evoca uma imagem, uma forma deixada ou criada por uma realidade sem forma. Os fenômenos, xiáng , apresentam-se a nossa observação como a nossa ação. Eles têm origem na realidade indizível do Tao ou Caos.

“O grande símbolo está sem contorno” (Lao Tsé, cap. 41)    
大象無形 dà xiàng wú xíng.

O grande símbolo, o símbolo absoluto, está sem contorno, pois nenhuma forma se adapta a ele. O que é apenas “sem contorno”, “sem forma” 無形 (wú xíng), o é, não pelas representações fenomênicas particulares, mas o Grande Símbolo, dà xiàng 大象 é a ordem do absoluto, do Tao, além do mundo sensível.

Com a forma xíng nós somos introduzidos no mundo sensível, diversificado, onde as formas, provenientes do sem forma, são múltiplas e revestidas cada uma de características próprias.  
A decomposição do carácter xing faz aparecer duas partes:

- a fonética, etimologicamente a imagem de dois pratos de balança em equilíbrio : há algo de bem construído e solidamente equilibrado, para servir de base, de fundação.

- o radical : são os pelos, as plumas, os cabelos; algo de leve e flutuante que vem revestir e ornar a fundação, a designando ao olhar manifestando a vida pelo movimento de flutuar ao vento. É a bandeira, o estandarte, o signo de reconhecimento.
Utilizar uma forma normal dos seres sensíveis é pegar um lugar entre todos os seres diferentes que vivem entre o Céu e a Terra. Os dez mil seres são na medida do possível formas diferenciadas:

“Produzidos pelo Caminho, nutridos pela Virtude, figurados pela Espécie, finalizado pelo Entorno, os Dez mil seres”.
 (Lao Tsé, cap.51; trad. Claude Larre)

道生之 德畜之 物形之 勢成之 是以萬物
Dào shēng zhī Dé chù zhī wù xìng zhī shìyǐ wànwù

Quando Yu o Grande percorria o Império, chegando ao país dos homens nus, ele retirou suas roupas, deixando este país, ele retomou suas roupas. Da mesma forma, os seres se revestem e depois retiram um aspecto sensível; eles entram, pelo nascimento, no mundo das formas, das espécies; eles saem pela morte, para retornar ao “sem forma” (無形wù xìng ), ao invisível, ao informe, que é o reservatório inesgotável da vida e de potencialidades. Assim
           “O sem Forma, é o ancestral primeiro dos seres” (Huainanzi, cap. 1)
夫無形者 物之大祖也  fū wúxíng zhě wù zhī dà zǔ yě

ou um pouco mais longe:

                “Entramos, é a vida. Saímos, é a morte. Do sem Forma se passa ao que há uma e do que há uma forma, passa-se ao eu não tem.”

出生入死 自無蹠有 自有蹠無   chū shēng rù sǐ zì wù zhí yǒu zì yǒu zhì wù
A mesma ideia se encontra no Zhuangzi:

“O grande começo é o Sem Forma, é o Sem Nome. O Um que surgiu é o Um sem forma corporal; e do que os seres são produzidos é a Virtude. Do Sem Forma, se produz a distinção e de lá continuamente o que chamamos de destinos (particulares). Dois, entre o repouso e o movimento, nascem os seres vivos. A disposição natural do nascimento e do término dos seres é o que chamamos de forma corporal. A forma corporal e a constituição abrigam os espíritos, fazendo de cada ser um ser próprio, e isso chamamos de sua natura (própria).” (Zhuangzi, cap. 12)

泰初有無 有無名 一之所起 有一而未形. 物得以生 謂之德
Tài chū yǒuwù yǒuwúmíng yī zhī suǒ qǐ yǒu yī ér wèi xíng wù déyǐ shēng  wèi zhī Dé
物得以生 謂之德 未形者有分 且然無間 謂之命
Wù déyǐ shēng, wèi zhī dé wèi xíng zhě yǒu fèn qiě rán wújiàn, wèi zhī mìng
留動而生物,物成生理,謂之形 形體保神,各有儀則,謂之性
liú dòng ér shēngwù  wù chéng shēnglǐ  wèi zhī xíng xíng tǐ bǎo shén gè yǒu yí zé  wèi zhī xìng.

As formas diferenciadas surgem do que é sem forma e é aí  a origem de cada ser, de cada forma figurada na sua originalidade própria; é o que o permite de se individualizar ao mesmo tempo por uma aparência, uma forma corpórea e pela presença do shén , dos espíritos específicos e de se realizar em um destino.
A formação e a estruturação do ser humano procedem assim. Aqui uma passagem do começo de uma compilação médica:

“O Dao do corpo (humano, representação e estrutura), é do Não Ter ao Ter (formas). O Não Ter (o Sem Forma), são os sopros do Céu Anterior. O Ter (as formas), são as formas do Céu Posterior.” (Leijing Tuyi)

體象之道  自無而有者也  無者先天之氣  有者後天之形
Tǐ xiàng zhī dào   zì wù ér yǒu zhě yě   wù zhě xiāntiān zhī qì   yǒu zhě hòutiān zhī xìng.

O princípio que governa um corpo estruturado e apresentando uma aparência em função de linhas de força de sua estrutura interna é que “isso” começa dentro do Sem Forma para ir às formas. E o texto continua:

“Mestre Shao dizia: o Céu se apoia sobre as formas: a Terra serve aos sopros. Os sopros para criar as formas; as formas para abrigar os sopros.”

劭子曰 天依形地附氣氣以造形形以寓氣
Shào zǐyuē tiān yī xìng Dì fù qì qì yǐ záo xìng xìng yǐ yù qì

A forma corporal, xìng se apresenta imediatamente a nossa percepção: o que se vê, se escuta, se sente... (mas, igualmente, o que vê, toca, escuta, sente... exerce a atividade sensorial, sensível que o corresponde).
A forma corporal exprime sensivelmente a estrutura profunda, não visível; e é o local da circulação dos próprios do indivíduo, animadores e produtores ao mesmo tempo da estrutura (as linhas de força) e da forma.
Uma forma, xíng não é uma ilusão de ótica, uma aparência falaciosa, um engano, uma ilusão, uma imagem imaginária. A forma é aquilo que ela mostra, a expressão confiável de uma realidade subjacente. Uma pessoa se revelará pelo corpo, pelo seu corpo que depende, por exemplo, da forma e da grandeza de seus ossos, de sua hereditariedade, mas também de seu estado geral e, sem qualquer dúvida, de seu estado mental e espiritual.
O corpo, a forma corporal, xìng , é o lugar onde acontece a agressão do perverso (agentes de patologias) e aquele onde ocorrem as intervenções que reestabelecem a normalidade. Ele é o intermediário da cura. Forma corporal e perverso se encontram no mesmo nível de realidade, de sensibilidade, pois o corpo é ativo pelos sentidos e sofre a ação dos sentidos dos outros. A forma corporal é o terreno das ações sensíveis e reparáveis. A verdadeira ação, notadamente terapêutica, se situam no nível mais sutil dos sopros e das almas. Mas estes não são diretamente perceptíveis. Não vemos jamais o vento, somente os galhos e as folhas que balançam; assim, sabemos que há vento. Sabemos mesmo, observando bem, em qual sentido ele sopra, com qual força, como se proteger ou proteger a casa.
A dialética Sem forma/Forma ou mesmo sopros/forma sensível é a vida. O Shiming[1], na sua primeira seção consagrada ao Céu dá a seguinte definição para os sopros, qi :

“O que percebemos (que escutamos), mas que não há forma.” (Shiming)
有聲而無形yǒu shēng ér wù xìng

A forma, xìng , é o terreno onde se apresentam as diversas ações da vida, as quais podemos ver se manifestar. As formas variam com os momentos e os lugares.
Vemos por exemplo a geografia frequentemente explicar a compleição física, a forma corporal: os homens que nascem nas regiões do Sul são caracterizados de tal e tal maneira, pela diferença com os do Norte ou do Leste...
Os textos de Huainanzi e ainda, de Shanhaijing (clássico das Montanhas e dos Mares) nos informa sobre a forma na qual o Oriente, o lugar de nascimento, determina algumas características físicas, ou mesmo morais do indivíduo. Os textos médicos tais como Huangdi Neijing, insistirão, naturalmente, sobre as propensões das patologias em função do local de nascimento e de moradia.





[1] Dicionário chinês consagrado à fonologia que possuía fonologia do dialeto dos Han do leste.



[i] 釋名 Shìmíng – «explanação sobre os nomes», dicionário fonológico chinês do final da Dinastia Hàn (200 EC)
[ii] Dùan Yùcái 段玉裁 (1735-1815 EC) autor de  說文解字註 shuōwénjiězì zhù.