segunda-feira, 18 de maio de 2020

Abordagem da sabedoria Taoista


Busca da harmonia com o cosmos
Elisabeth Rochat de la Vallée

Tradução Mariana C. T. Scarpa


            A china produziu o Taoismo no curso de uma longa maturação. Atitude diante da vida, isto que chamamos de Taoismo poderia ser uma religião, uma ética, uma sistematização do mundo. Ele se insinua em todas as atividades daqueles que aceitam a sua impregnação. A retidão interior é a expressão em si da ordem do mundo, que não é outra senão a universal espontaneidade, quer dizer, a Via, o Tao (dao). Ordenando-se a si mesmo de acordo com esse modelo cósmico, é que se percebe em todas as manifestações da vida natural, que tudo se regula. Através da iniciação e da prática, nos unimos as grandes forças do mundo, tais como Yin Yang; alcançamos assim a Longevidade, uma vida de uma duração indefinida no seio do universo. O agir se confunde com a integração cósmica: compõe um só sopro com o sopro cósmico, na espontaneidade absoluta. Não interferindo de forma alguma na ordem natural, ele é um não-agir, um agir sem agir, que é, entretanto, mais eficaz do que as atividades voluntárias habituais dos homens.

Os textos fundadores

            Estes são os textos sobre os quais repousa o taoismo em seu espírito profundo; é a eles que retornamos regularmente para fundar teorias e condutas, mesmo que muitos outros textos, escritos por um mestre ou “revelados”, enriqueçam e precisem, ao longo dos séculos, a abordagem e as práticas taoistas. Eles servem de base a esta exposição, que não pretende tratar de todo o Taoismo, mas simplesmente iluminar alguns aspectos essenciais.
            Citaremos frequentemente, para ilustrar nossa afirmação, o Livro da Via e da Virtude (Daodejing)[i], atribuído a Laozi, pois este texto curto contém o essencial da doutrina. Ele é o mais acessível a todos em numerosas traduções, em praticamente todas as línguas ocidentais.
            Este texto, presumivelmente redigido durante a segunda metade do terceiro século antes de J.C., foi atribuído ao legendário Laozi, “o velho mestre”, uma espécie de personagem compósito que assume algumas características de um arquivista contemporâneo de Confúcio, enriquecido de detalhes e de lendas com significados filosófico, político e ideológico. Quem compilou este livro – sem dúvida, um antigo ministro ou um general – retomou os elementos de textos e reflexões preexistentes; mas ele, no entanto, fez uma obra pessoal pela potência e beleza ao mesmo tempo do estilo e do pensamento.
            O Zhuangzi, obra bem mais longa e repleta de anedotas, é composta de 33 capítulos, escritos entre o quarto e o primeiro século antes de J. C. Ele oferece toda uma comunidade de pensamento [ideias] junto com o Laozi, apresentando as abordagens e as sensibilidades variadas.
            O Liezi, atribuído ao sábio de mesmo nome que teria vivido por volta dos 400 antes de J.C., é frequentemente associado aos dois precedentes em uma espécie de trilogia de textos fundadores. De fato, ele teve a sua redação muito mais tardia (no quarto século depois de J.C.), ainda que ele integre os elementos contemporâneos de Laozi e de Zhuangzi.

Formação do Taoismo

            A sensibilidade e o pensamento taoista são devedores de inúmeras fontes: o antigo fundo xamanista e animista da China; a religião popular; as técnicas fisiológicas, meio exorcistas e meio medicais, até mesmo mágica; as especulações cosmológicas que têm ao mesmo tempo a adivinhação e a observação dos astros e dos fenômenos naturais; a atitude do ermitão retirado do mundo ou ainda aquela do artesão especialista na sua arte… Nos séculos que precedem a era cristã, os pensadores bebem nestas diferentes fontes, mas se caracterizam por uma referência crescente a um absoluto subjacente a toda via e que funda toda cosmologia.
            Quando o caractere “Dao” ou “Tao”[ii] é utilizado para designar este absoluto inominável, os textos reunidos em torno desta sensibilidade são ditos de [pertencerem] à escola taoista (dao jia 道家). O caractére “dao ” significa via, caminho; é uma maneira de proceder, um método. Cada um caminha, segue uma via, uma regra de vida pessoal, reflexo da ordem do mundo. Assim, se progride na existência, cumprindo o seu papel familiar e social da melhor maneira possível. No taoismo, a Via está além de todos os caminhos pessoais, mas sustenta e funda todos eles:
            “A via que podemos enunciar não é mais a Via” (Daodejing, 1).

            Além de toda percepção sensível ou conhecimento intelectual, a Via é presença inefável, fonte de todas as manifestações da vida:
            “Profundidade abissal, diríamos uma presença. Nós ignoramos de onde ela procede, pressentindo que ela precede o próprio Soberano” (Daodejing, 4).

            “A Grande Via… os Dez mil seres[iii] dependem dela para viver” (Daodejing, 34).

            Um pouco mais tarde, no primeiro século da era cristã, a religião taoista (dao jiao 道教) aparece com clero e ritos. Entretanto, o taoismo religioso não seria submisso a uma autoridade central, decidindo o lícito e o ilícito, promulgando um dogma. Numerosos ramos ou sectos florirão, exprimindo a vitalidade sempre renovada do Taoismo.

O Taoismo é sempre uma prática

            Mesmo se é preciso fazer uma diferença entre um Taoismo filosófico e um Taoismo religioso, não se pode levar essa diferença ao limite de uma separação entre um e outro. A prática deve ser o culminar do pensamento e o pensamento, o fundamento da prática. O Taoismo religioso se inspira sempre nos grandes textos ditos filosóficos. Estes textos, por si mesmos, não assumem todo o seu sentido se eles não inspirarem uma conduta de vida e se eles não conduzirem a isso que os ultrapassa.
            Trata-se sempre, por meios variados, de se integrar à Via, princípio de vida, constante, inalterável, que sustenta a ordem do mundo em sua regularidade, sua fiabilidade e sua espontaneidade.

            “Uma coisa feita de uma mistura está lá antes do Céu Terra[iv]; silenciosa, ah sim! Ilimitada seguramente! Repousando sobre si, inalterável, girando sem erro e sem desgaste. Podemos ver a Mãe disto que está sob o Céu. Nós não conhecemos seu Nome; sua denominação é: a Via” (Daodejing, 25).

O retorno

            A busca de cada um é a de voltar. Voltar, é primeiramente operar uma reviravolta. Revirar os valores habitualmente reconhecidos pelos homens, pela sociedade:

            “Reviravolta, movimento da Via. Fraqueza, seu uso” (Daodejing, 40).

            É voltar ao movimento cósmico da vida, que volta o frio em calor e o calor em frio ao longo das Quatro estações do ano; que, igualmente contém todos os opostos, todos os contrários (incluindo vida e morte) e os deixa se exprimirem em alternância, em harmonia, para manifestar as incontáveis formas que assume a vida.
            É voltar à origem de minha vida, fonte de toda a vida, tal como ela é em si mesma. Mesmo se essas imagens são metaforicamente empregadas, não se trata de retornar até o estado de infância ou embrionário, mas de reencontrar em si – pela ascese, pela meditação, pelas práticas – a pura realidade, a Via. Esta necessita abnegação e desinteresse, que vão até a abolição do “eu” ou além da pessoa enquanto ser particular. O taoismo ao buscar a verdadeira via, da imortalidade, da Via que está além da vida e da morte, renuncia a todo desejo e volição, as emoções e apegos, a toda possessão pessoal, seja ela física, intelectual ou mental. É a este preço que ele se renova e se reencontra integrado ao movimento da vida.
            “Chegamos ao extremo do Vazio, firmemente ancorados na Quietude, enquanto Dez mil seres de um só ímpeto eclodem, nós contemplamos o Retorno.
            Os seres prosperam através dos impulsos, mas cada um retorna a sua raiz. Voltar a sua raiz, é a Quietude, é cumprir seu destino. Cumprir seu destino, é o Constante. Alcançar o Constante, é a iluminação; não o conhecer, é correr loucamente ao desastre.

            Alcançar o Constante dá acesso ao Infinito, pelo Infinito, ao Universal; pelo Universal, ao poder real; pela Realeza, ao Céu e pelo Céu à Via; a Via pela vida que permanece e o fim de sua vida não será a destruição” (Daodejing, 16).

O Vazio e o Nada (xu wu 虛無)

            Tudo começa pela diminuição dos prejuízos, desejos, intenções; pela renúncia do saber que crê que sabe, pelos conhecimentos que impedem frequentemente de agarrar a vida na sua fonte enquanto multiplica as informações, exatas, certas, mas que nos desviam do essencial, quando sua busca e sua aquisição substituem o retorno à si e à Via.

            “Para o estudo, todos os dias um pouco mais. Para a Via, todos os dias um pouco menos” (Daodejing, 48).

            Uma vez que a Via não é nem definível, nem pensável. Exercer seu pensamento e sua inteligência para agarrar a Via, é cometer um contrassenso. Mas tentar erradicar cada determinação ou qualidade própria, aproxima-se dela eliminando os primeiros obstáculos.

            “Vemos, mas sem ver: chamamos Invisível. Escutamos sem ouvir: chamamos Inaudível. Buscamos tocá-lo: chamamos Impalpável. Eis três coisas inefáveis, que, confundidas, fazem a Unidade” (Daodejing, 14).

            Esvaziar-se não é ser nada; é desenvolver a força de vida e se deixar levar para onde ela se cumpre [se realiza]. O Vazio não é uma falta, é isto que permite a adaptabilidade [flexibilidade], a agilidade; por ele nós somos enraizados no mais profundo, pois nos livramos continuamente do superficial e do inútil.

            “O homem de caráter escolhe a substância e não se fia nisto que é superficial. Ele está para a fruta, não se fia na flor. Ele rejeitaria o exterior e permaneceria em si;” (Daodejing, 38).

            O mestre em artes marciais não faria diferente: tranquilamente, ele espera seu adversário, sem nada antecipar, sem nada imaginar, mas estando igualmente, pronto a tudo. Sua reação será instantânea, justa e potente. Nada seria desperdiçado de suas potencialidades por uma ideia que, mesmo correta, é inútil e até mesmo prejudicial, visto que ela encobre o espírito.
            Assim, podemos nos preencher de uma sensação autêntica de vida, bem além do pensamento e da consciência clara, uma experiência da realidade que permite ultrapassar as angústias e os medos da condição humana.

O não-agir (wu wei 無為)

            Não tendo mais nem desejos, nem vontade própria, o agir do sábio taoista não é dirigido por uma intenção ou um julgamento; ele é uma simples reação as situações de um ser que encontrou em si a ordem natural da vida. Isto que ele faz não interfere nunca no curso das coisas e no movimento natural dos seres. O Não agir é movido por uma necessidade interior de fazer isso que é preciso, naquele momento e naquele lugar determinado, pela natureza das coisas. Assim, não há nada que não seja realizado, uma vez que a Via é a universal espontaneidade presente no coração de cada um.

            “A Via constante é Sem agir e [não há] nada, entretanto, que não seja feito” (Daodejing, 37).

            Toda intervenção no curso das coisas suscita reações que ninguém pode controlar e que podem alcançar algo totalmente diferente que a intenção primeira. A oposição, de uma forma ou de outra, ao movimento natural, é intervenção, é agir pela sua própria decisão ao invés de se voltar ao desdobramento da Via nos seres e nas situações. Os afazeres e suas consequências nefastas não deixarão de cobrar seu tributo:

            “A intervenção é o fracasso; a possessão é a perda. Os Santos não intervindo, evitam o fracasso; não possuindo, evitam a perda” (Daodejing, 64).

A virtude do sábio

            A eficácia do sábio não está ligada a sua ação, mas a sua virtude. Por “virtude” (de ), antes de [compreendê-la] por qualidades morais, compreendemos por eficácia potente que se obtém pelo agir natural. Um homem possuído pela Virtude segue, perfeitamente e espontaneamente, os movimentos da vida; ele está preenchido pela potência que pertence à vida quando nenhum desejo ou vontade a contrariam ou a desviam. Assim, emana dele como uma força que toca os outros, sem que eles mesmos tenham uma verdadeira consciência disso; esta força os toca lá onde eles mesmos estão em contato com a realidade que os faz viver; ela pode, portanto, devolver a eles mesmos ainda mais autenticidade.

            “Os Santos se dedicam a socorrer os humanos sem rejeitar ninguém, se dedicam a socorrer os seres sem rejeitar nenhum. É isto que chamamos de: difundir em seu entorno a Luz. O homem bom é o mestre do mau, o mau serve de matéria ao homem bom” (Daodejing, 27).

            O sábio não utiliza esta força, pois manipulá-la seria destruí-la; ele a deixa emanar de si, ao cultivar sua participação ativa e mística na vida do mundo, mas tomando bastante cuidado de mantê-la escondida e ignorada. É melhor que ninguém perceba a ação secreta do sábio, pois a consciência corre o risco não somente de prejudicar o sábio “descoberto”, mas também de perverter o processo mesmo pelo qual os seres são tomados por sua influência benéfica.
            É assim que o governo do Estado é [compreendido como] um efeito do trabalho sobre si e que o ensinamento sem fala por si só transmite o essencial.

O modelo da água

            O sábio se compara à água: como a chuva que cai sobre os campos, ele deixa sua influência se difundir sobre os bons e os maus, simples efeito disto que ele é.

            “Um homem de alto cargo[v], fazendo o Bem, agirá como a água” (Daodejing, 8).

            Assim como a água, o sábio se deixa levar com todas as aparências da fraqueza, mas sem se deixar desviar. A água do rio, seguindo sua única natureza que é a de ir para baixo, chega sempre no mar, é indiferente a todas as voltas e desvios que as circunstâncias a impõe. O sábio também segue sua natureza e a natureza das coisas, indiferente àquilo que as circunstâncias o comanda; ele não resiste, não se opõe a nada, não briga com ninguém, não para evitar o combate, mas sim porque ele é movido pelo seu reencontro com a Via. A Via, união dos contrários, coexistência harmoniosa dos incontáveis viventes, é a infinita adaptabilidade do sábio que se mantém a ela e por ela. O sábio possui então a vida que não se esgota.

            “[Não há] nada no mundo como a água, a mais flexível, a mais fraca. Para atacar o sólido e o forte, quem será como a água? O não ter nela, a faz cambiante” (Daodejing, 78).

Mística e transcendência

            O sábio taoista é um místico no sentido de que ele busca a fusão com a Via, a integração total com o princípio cósmico de vida. Não há relação com este princípio de vida, uma vez que ele não é outra coisa senão isto que existe, ele não é exterior a si ou ao mundo. Tampouco buscamos ter consciência deste princípio, pois ter consciência seria ser dois com ele, ser distinto dele, separado. Não podemos senão tentar se fundir nele, ser um com ele, pois a unidade é a realidade mais profunda de cada um, a única permanente. Nossa existência atual não é senão uma fase, que nos faz viver a distinção e a dualidade; mas esta existência se exprime pela e na sua dualidade, não devendo perder sua raiz sob a pena de se perder para sempre. A união à Via se faz, portanto, numa abolição de si, que não é, entretanto, percebida como um desaparecimento.

            “Se contentar com pouco é a riqueza. Agir com toda a potência é se consumir. Conservar os meios é durar. Morrer sem perecer é a Longevidade” (Daodejing, 33)

              O sábio taoista, na montanha, contempla as nuvens e medita sobre o efêmero que elas evocam. Além das nuvens há o céu; e além do azul do céu não haveria o azul-celeste infinito?
              Apenas permanece isto que está além do efêmero e do qual cada ser faz parte antes mesmo de começar a existir.
              Esta fusão indizível, se ela não é uma ilusão, deve ser ativa, perceptível, no mundo presente, através de nossa existência tomada nas suas múltiplas tensões. Experimentamos variados níveis na vida cotidiana. Assim o artista, por exemplo, um pianista, não se representa no momento em que ele toca, há uma integração total de todos os elementos de seu ser para produzir a música; ele não sabe nem mesmo como isso acontece; e quando ele está dentro, ele não pode mais se separar, [nem mesmo] pensar, tanto menos explicar isso. Mas ele não pode verdadeiramente tocar, bem tocar, se ele não estiver neste estado. “De volta à terra”, no fim do recital, ele pode falar, sabendo que ele não poderia nunca exprimir através de palavras isto que ele viveu quando ele não podia nem mesmo pensar. Ele se exprimirá, no entanto, pois ele pertence ao mundo da dualidade, da multiplicidade, com a sua pessoa, seu corpo, suas qualidades, suas relações aos outros seres… Mas o estado experimentado quando ele toca não apareceria a ele como ainda mais real?
            Os artistas, ou cada um de nós, concentrados sobre isto que nós sabemos fazer, vivemos a mesma experiência, que dá acesso à realidade do Um. Não se trata de ser alhures, de ser outro, mas de passar para além das determinações e especificidades que mantém a multiplicidade na dualidade, para ser senão Um com a Via do Céu, em um abandono total, o qual compreende a sua própria atividade mental. A morte, então, não é senão o retorno a este estado que eu já experimento como mais constante, mais real que os outros aspectos da minha vida, Finalmente, devemos ir até [o ponto de] afirmar que vida e morte não são senão um, pois se elas fossem verdadeiramente diferentes, a Unidade sobre a qual nos apoiamos não passaria de um engano/ilusão.

            “Assim, o sempre sem atrativos convida a contemplar o mistério, e o sempre repleto de atrativos a considerar seus aspectos manifestos. Estes dois, nascidos juntos sob nomes diferentes, estão de fato juntos na Origem. E de origens em Origem, a porta do mistério maravilhoso” (Daodejing, 1).

            Podemos falar de transcendência? Sem dúvida não no sentido dado pelo Cristianismo; como tampouco podemos falar de imanência. A Via do sábio taoista o leva à raiz da existência, lá onde não há nada determinado ou determinável, expresso ou exprimível, pensado ou pensável, mas sobre o que repousa a totalidade dos seres que possuem cada um suas determinações, suas expressões e capacidades específicas.

            “Os Dez mil seres do mundo são o produto disto que tem, mas isto que tem é produzido disto que não tem” (Daodejing, 40).




[i] Na tradução de Claude LARRE, nova edição, DDB, Paris, 2003.
[ii] Conforme as transliterações utilizadas. A pronúncia e o caractere são os mesmos; o que varia apenas é a maneira de fazer essa pronúncia em letras romanas.
[iii] Todos os seres que povoam o universo.
[iv] O Universo.
[v]  Nota do tradutor: A expressão utilizada neste trecho foi “Um homme haut placé”, a qual traz a ideia de alguém que pertence a um cargo elevado, que ocupa um lugar soberano, superior, altamente situado na sociedade.